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cinema | poesia | verdade

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me from Nowhere)

Avaliação: 2.5 de 5.
Scott Cooper | Estados Unidos, 2025.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido é a típica cinebiografia musical americana, toda construída sob fórmulas. Seguindo uma cartilha de perfeccionismo técnico, não faz jus à trajetória do astro do rock Bruce Springsteen — quem tenta homenagear.

Não se engane: não há nada de excepcionalmente errado com o longa. O roteiro não deixa pontas soltas, as performances são eficazes e o desenho técnico é funcional. O problema é a falta de autoria. Parece que já vimos esse filme antes e, quando se trata de um ícone tão individual quanto Springsteen, o ordinário soa errado. Seria preferível, talvez, uma produção menos polida, porém autêntica o bastante para dialogar com o espírito do artista.

Ainda assim, o trabalho tem seus méritos. Destaco positivamente a escolha do recorte temporal na biografia do músico. A decisão de retratar um momento de maior exploração emocional, introspecção e busca por uma verdade artística — em vez do auge do sucesso — é corajosa e acertada.

Fácil seria retratar a vida de Bruce pós Born in the U.S.A., com cenas arrebatadoras de estádios lotados. Em vez disso, o filme o mostra quebrando a cabeça em um estúdio, tarde da noite, tentando encontrar a sonoridade certa para seu álbum mais pessoal, o folk Nebraska. Embora a edição insista um pouco demais nessas sequências, são elas que conduzem a uma questão interessante levantada pelo filme: o limiar entre “a alma perturbada do artista” e “o capricho vaidoso da estrela”.

Springsteen, no momento retratado, não era o ser humano mais fácil de lidar. Embora o roteiro advogue persistentemente por suas boas intenções e justifique suas atitudes controversas com flashbacks de um passado traumático (beirando a higienização), ficam evidentes certos problemas de personalidade. O resultado é que as pessoas ao seu redor — à exceção da família — vivem em função das volúveis vontades do astro, numa rede de condescendência quase absoluta.

Essa característica torna o roteiro previsível: o espectador logo percebe que todas as incorreções do astro não terão consequências relevantes. Além disso, apaga parte da humanidade das demais personagens, reduzidas a figuras apaziguadoras que orbitam o protagonista.

O maior exemplo disso é o interesse romântico de Springsteen, Faye Romano (Odessa Young), personagem fictícia criada para dar corpo à história do ídolo no período retratado. Ela é uma mãe solteira que começa a sair casualmente com o músico e acaba se apaixonando. Sua atitude em relação a Bruce é sempre de aceitação diante de suas repetidas falhas, praticamente implorando para que ele fique com ela — disponível independentemente de qualquer coisa.

As motivações de Bruce sempre remetem ao mesmo ponto: os abusos que sofreu na infância por parte do pai alcoólatra. As cenas de retrospectiva, em si, são medíocres — optam pela óbvia fotografia em preto e branco e pela coreografia genérica de brigas conjugais que já vimos centenas de vezes. No campo argumentativo, porém, essa solução funciona para justificar o comportamento errático e depressivo do astro, servindo como alicerce para a construção de sua personalidade adulta.

As performances não são estelares, mas suficientes para aproximar o público emocionalmente, fazendo-o torcer pelos personagens. Não há vilões nem grandes viradas narrativas — o que preserva o realismo, mas achata o relevo emocional e, consequentemente, faz o filme parecer mais longo do que o necessário.

Terminamos o filme conhecendo Springsteen em um nível bastante pessoal, mas um pouco distraídos pelos percalços da execução. O tom de homenagem é o que prevalece quando os créditos sobem, encerrando a sessão em nota positiva e despertando o desejo de revisitar a arte e a história de Bruce.

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