1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Christy

Avaliação: 3.5 de 5.
Brendan Canty | Irlanda/Reino Unido, 2025.

Christy é um filme pequeno de coração gigante. Ele vive pela jornada de seu autoentitulado protagonista (Danny Power), um jovem irlandês que acumula traumas incontáveis em seus quase 18 anos de vida.

Após não se integrar em mais uma família adotiva, ele é enviado para viver temporariamente com seu irmão mais velho, Shane (Diarmuid Noyes), e sua cunhada, Chloe (Alison Oliver), que acabam de ter seu primeiro filho. O protagonista redescobre a comunidade de quem se desgarrou há mais de 15 anos, na ocasião da morte de sua mãe.

Enquanto tenta criar vínculo com os outros jovens, ele é reconhecido por aqueles que conviveram com sua mãe. Essas relações, paralisadas abruptamente no tempo, voltam a ver a luz do dia, revelando os detalhes mais sórdidos e tristes do fatídico incidente.

O filme é inteiramente centrado no garoto Christy e em suas relações. A dificuldade de comunicação é o grande pretexto de todas as subtramas, mas não pode ser encarada como um recurso narrativo fácil ou preguiçoso do roteiro. Isso porque a condição de Christy justifica sua dificuldade de diálogo — que se torna, na verdade, o traço mais forte e doloroso de uma personalidade acidentada.

Seu silêncio vem da forma como aprendeu a sobreviver: falando menos para não se expor demais. Mas também nasce da sua inaptidão de se autocompreender, em um nível emocional, de dar nome ao que sente e, em última instância, de dar importância aos próprios sentimentos. É um silêncio que vem de dentro e de fora, suprimindo a humanidade do menino, enterrando seus sonhos, apagando suas individualidades.

Christy é um personagem complexo, bem escrito e bem interpretado — mas desafiador em todos esses sentidos. Tudo o que conhecemos de seu interior é o que deixa transparecer por descuido, em rápidas brechas, como quem espia através de uma janela entreaberta. Daí a dificuldade de criar essa personagem, que depende da atenção às sutilezas, por parte do público, para ser plenamente compreendida.

A relação que mais importa é a de Christy com seu irmão, Shane. Ambos tentam se encaixar, celebrar esse laço de amor existente entre eles, mas não sabem como — sequer conseguem racionalizar esse vínculo invisível que os puxa um em direção ao outro. Entre eles há muita coisa engasgada, muitos segredos e ressentimentos — sempre causados por terceiros, sempre vitimando os irmãos.

No mais, toda a estrutura do filme é simples, assemelhando-se bastante a outros dramas europeus independentes, mas com um verniz especial pela sensibilidade da obra. A fotografia fria e chuvosa é um bom termômetro do estado de espírito do jovem protagonista, cuja vida é andar pela neblina sem ideia do que vem ao seu encontro nem de onde quer chegar.

Talvez simples demais, mas efetivo, é um retrato sobre a banalização da juventude — de como a marginalização ocorre nos países desenvolvidos através dos subúrbios que isolam a pobreza e retiram dela o acesso a uma perspectiva libertadora. É um cinema que olha para os invisíveis e entende que o silêncio também pode ser uma forma de gritar.

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