Em meio à pobreza e à propaganda do regime de Saddam Hussein, uma menina é escolhida para levar o bolo de aniversário do presidente — um presente que se transforma em sentença. Acompanhada da avó doente, Lamia parte em busca dos ingredientes para cumprir sua missão.

The President’s Cake, de Hasan Hadi, é um drama de guerra contado a partir da jornada de uma menina em idade escolar, cujo conhecimento do mundo passa pelo estreito filtro de um Estado autoritário e de uma sociedade tradicionalista. Acima de tudo, é um lembrete de que a maldade humana não concede passe livre aos mais vulneráveis — pelo contrário, é justamente deles que se alimenta.
Em primeiro lugar, é preciso pontuar: a perspectiva de Hasan Hadi sobre o Iraque de Saddam Hussein é extrema. Lá, um Estado violento e explorador oprime um povo faminto e miserável, que jura lealdade ao líder a plenos pulmões.
Nas escolas, comandadas por militares, as crianças repetem mantras de veneração a Hussein em todas as ocasiões possíveis. Um passo fora da linha é motivo para delação e, consequentemente, para uma punição cruel — não só ao aluno, mas também à sua família.
Ao ser sorteada para levar o bolo de aniversário do presidente, a jovem Lamia (Banin Ahmad Nayef) não recebe um desafio, mas uma sentença. Vivendo em condições deploráveis, num barraco flutuante e sob os cuidados da avó já muito idosa e doente, ela sabe que tal tarefa será pesada demais para quem quase já não tem forças.
Bibi, a avó, decide que as duas irão à cidade em busca dos ingredientes para a desafortunada receita:
— cinco ovos, para a fertilidade;
— um quilo de farinha, para a vida;
— quinhentos gramas de açúcar, para adoçar a existência.
Elas juntam seus poucos pertences de valor e partem.

A partir daqui, o filme se transforma em uma sucessão de desastres — um drama de desencontros conduzido pela inocência de duas crianças perdidas na cidade. Enquanto Lamia e seu amigo Saeed (Sajad Mohamad Qasem) tentam conseguir o que precisam, as armadilhas do desconhecido se armam à sua volta.
Hadi retrata uma terra seca e pulsante, fervilhando de sentimento coletivo diante da guerra que paira sobre suas cabeças. Nessa correria, Lamia e Saeed enfrentam os adultos de uma sociedade adoecida, que já não enxerga as crianças como sujeitos de direito, mas como alvos fáceis de exploração.
Essa dinâmica exige uma montagem acelerada, capaz de reproduzir a velocidade urbana. No entanto, o ritmo frenético não deixa espaço para assimilar todo o desconforto causado pela sequência de desgraças na jornada dos meninos. Os momentos mais calmos, por outro lado, são doces e tristes, concedendo ao espectador um raro respiro emocional.
A fotografia opaca, mesmo sem brilho, consegue expressar tanto a tensão da convulsão social da cidade quanto o marasmo da zona rural — abandonada às moscas pelos governantes que ainda insistem em sugar até a última gota de seu sangue.
Ao final, de volta à escola, sem mais ter em quem se apoiar, a infância de Lamia é, uma vez mais, posta na mira da guerra. O estrondo seguinte nos lembra que o horror não conhece intervalo — nem pausa para o bolo: até a esperança pode ser bombardeada.

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