Em O Beijo da Mulher-Aranha, Bill Condon transforma uma história sobre libertação em um musical de papel-machê. Entre celas iluminadas e coreografias sem alma, o amor entre Molina e Aguerri perde sua dimensão política e se torna apenas mais uma fuga romântica.

Neste remake do clássico de 1985, a poesia revolucionária desta história é reduzida por uma condução que carece de alma. O problema não é o apetite pelo espetáculo — muito pelo contrário. O que prejudica o filme é a incapacidade de atingir o efeito que pretende: nas grandiosas cenas musicais, ou nas emotivas passagens dentro da cadeia, tudo parece barato, descartável, falso.
O ano é 1983. Molina (Tonathiu), cumprindo pena por atentado ao pudor, apresenta-se como um homem homossexual devoto às grandes figuras femininas e exuberantes do cinema hollywoodiano, em especial à glamorosa Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Aguerri (Diego Luna), por sua vez, enfrenta o cárcere por seu envolvimento em grupos políticos de esquerda que se opõem à ditadura que governa a Argentina.
Os debates entre os protagonistas, que abrigam o coração da obra, são cartunescos. Ainda que reproduzam a mentalidade da década de 1980, seria de se esperar maior robustez intelectual entre um estudioso do marxismo e um amante do cinema. O roteiro não demonstra interesse em amadurecer os posicionamentos das personagens nem em retratar o modo como essas opiniões poderiam gradualmente convergir.
Em vez disso, o desenvolvimento dos temas levantados — a política, a arte, o cárcere, a homossexualidade e a transgeneridade — é deixado de lado para dar espaço ao envolvimento romântico entre os protagonistas. No fim, parece não haver verdadeira compreensão mútua do cenário político em que se passa o filme, e as ações de Molina soam resultado apenas de seu amor por Aguerri, não da semente revolucionária que lhe fora plantada no coração.
Sabemos que é feio comparar filmes, mas o ponto mais belo do original era justamente a fusão entre amor e revolução, dois impulsos que se confundiam num só sentimento. Desta vez, há espaço apenas para um deles — como se fossem instâncias antagônicas ou, no máximo, que se cruzam superficialmente na performance de uma postura revolucionária.

É uma visão reducionista de absolutamente todos os temas tratados, em razão das graves falhas do roteiro. Se Bill Condon tivesse delimitado melhor seu campo argumentativo — seja no texto, seja na montagem — o resultado poderia ser outro. Falta concentração, falta mergulho nas questões que o próprio filme propõe. Pincelar tantos temas sem desenvolvê-los resulta não em uma visão ampla, mas em uma superficial.
A Mulher-Aranha de Jennifer Lopez não é impactante. O retrato dessa personagem tenta ser místico e glamouroso, mas recai em estereótipos toscos e numa atmosfera artisticamente pobre, beirando o amadorismo. A performance, embora correta, não vai além do que o roteiro exige — não cria uma persona divina nem estabelece a conexão espiritual que Sônia Braga alcançou no original.
Diego Luna e Tonathiu precisam lidar com as banalidades de uma narrativa que privilegia o valor do choque em detrimento da humanidade de suas personagens. Suas motivações contraditórias são tratadas como meros empecilhos que a trama prefere ignorar, avançando direto para o romance, que soa menos orgânico do que deveria. A verdade é que entre eles não há química — e a culpa, neste caso, não é dos atores, mas de Condon enquanto roteirista.
Ao final, fica na boca um sabor aguado: nem amargo o bastante para incomodar, nem doce o suficiente para querer repetir. Bill Condon não consegue honrar a beleza e a força de uma história tão poderosa e mágica, recorrendo a atalhos narrativos e formas apelativas de emocionar o público.

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