1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother)

Avaliação: 4 de 5.
Jim Jarmusch | Estados Unidos/França/Irlanda/Itália/Alemanha/Reino Unido, 2025.

Na segunda metade do século 20, etólogos como Donald J. B. Slater e Nicholas Tinbergen observaram que, após o voo do ninho, os filhotes de espécies como andorinhas e pardais ainda reconhecem os chamados maternos por poucos dias — mas o vínculo desaparece completamente em poucas semanas.

Pai Mãe Irmã Irmão, de Jim Jarmusch, não fala sobre família, mas sobre parentes quando o vínculo construído pela convivência não se rompe abruptamente — apenas se apaga, aos poucos, com o tempo e a distância.

É impressionante notar como o afastamento emocional parece depender da proximidade física. Se não fosse improvável, poderíamos inferir que Jarmusch inspirou-se no célebre ditado popular brasileiro que diz que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.

Esse filme é, afinal, sobre pessoas que dividem um passado, um sólido vínculo legal e social e algum nível de afeto. No entanto, quando reunidas fisicamente, o prolongado silêncio que reina por entre suas poucas palavras e interações pré-prontas denuncia o estranhamento entre elas.

Importa perceber que uma única pessoa pode comportar uma pequena coleção de personalidades que se moldam às diferentes situações sociais. Alguém pode ser tímido e introspectivo em casa, na presença da família, mas tagarela e divertido entre amigos.

Quando essas pessoas se reencontram, elas sentem a necessidade de portar-se em conformidade com a persona que desempenhavam no tempo em que conviviam. A personalidade antiga, já enferrujada, trunca a conversa e gera um constrangimento compartilhado.

É nesses reencontros que Jarmusch triunfa, com o momento mais refinado do seu humor embaraçoso, porém afetuoso. Brincando com essa dinâmica, o cineasta — que aqui brilha mais como roteirista do que como diretor — consegue a façanha de arrancar, de uma só vez, um riso disfarçado de canto de boca e uma meia lágrima tímida do espectador, enquanto tece discretamente um comentário social, como de praxe.

A divisão em três histórias funciona porque a edição e o enredo conseguem engajar o público sem recorrer a grandes picos emocionais, contentando-se com esse estado perpétuo de “empatia com pressão baixa”. Jarmusch encontra uma maneira inteligente de conectar esses segmentos, inserindo elementos visuais comuns entre as tramas — como skatistas que surgem em alguma cena ou roupas que coincidem por acaso.

Esses paralelos introduzem a noção de que há bem mais semelhanças do que diferenças nas situações retratadas, evocando um núcleo comum entre todas as famílias. Essas características compartilhadas são muitas, mas a que mais importa é que dificilmente vemos um parente como uma pessoa complexa: há sempre mais do que uma mãe, um pai, um irmão ou uma irmã em cada indivíduo. Existem dimensões que não conseguimos acessar, seja por estarmos longe demais, seja por estarmos perto demais.

Essa compreensão se evidencia na última história, “Irmã Irmão”, em que dois gêmeos visitam o apartamento dos pais, recém-falecidos em um acidente de avião. Ali, eles vislumbram as pessoas que seus pais eram quando não o eram — antes e depois de virem ao mundo. Estabelece-se um novo vínculo de proximidade, impossível quando ainda estavam vivos, seja pelo apego aos alter egos familiares, seja pela falta de contato.

É na simplicidade dessas histórias que reside a potência do humor de Jarmusch. Por meio de seus contos, ele dirige atores a grandes performances e toca o público nos lugares mais inacessíveis, encontrando seu lugar e sua vocação dentro do cinema. Entre a memória e o esquecimento, o amor talvez seja só isso: o breve instante em que ainda reconhecemos o outro antes que o tempo o leve de vez.

inscreva-se

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre 1001 Filmes

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading