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cinema | poesia | verdade

Homebound

Avaliação: 3.5 de 5.
Neeraj Ghaywan | Índia/Estados Unidos/França, 2025.

As estruturas de exploração são muito parecidas em toda a periferia do capitalismo. Em Homebound, Neeraj Ghaywan nos convida a visualizá-las sob a perspectiva de uma sociedade de castas.

A máquina da ganância, potencializada no terceiro mundo pelas elites internas e pela dependência internacional, funciona suprimindo individualidades. Sonhos são manufaturados, amizades são empecilhos, e a busca pelo crescimento intelectual — e a consequente libertação da mente — é mais um produto, um enlatado qualquer na prateleira do mercado.

Na Índia contemporânea, apesar do banimento constitucional do sistema de castas, a pirâmide social permanece intacta. Se a regra no mundo ocidental é a classificação racial das pessoas, na nação mais populosa do planeta, o sobrenome e a religião são vetores que determinam como alguém deve ser tratado — e qual futuro o aguarda.

Chandan (Vishal Jethwa) e Shoaib (Ishaan Khatter) dividem um forte laço afetivo, construído nos campos improvisados de críquete, nos trens superlotados e nas vielas do vilarejo onde nasceram e permanecem até a vida adulta. Em um concurso para integrar a polícia, eles veem uma promessa tola de ascensão social que, aliada às pressões internas e externas para suprir as necessidades econômicas de suas famílias, desencadeia uma sequência de eventos que põe à prova a amizade e expõe as contradições capitalistas.

Eles acreditam na promessa de superação da dinâmica de classes por meio do trabalho, da meritocracia, do esforço individual. Chandan crê que o cargo sobrepor-se-á ao seu nome e à sua origem e que, então, será finalmente tratado com respeito — convidado a sentar-se à mesa. Mas os agentes do sistema de segregação deixam claro que “um porco na pele de lobo não deixa de ser um porco”.

A simbologia mais importante da obra surge no momento em que Chandan percebe que renunciar aos estudos é aceitar o lugar de mão de obra barata na estrutura do mercado, mas, ainda assim, é a única opção humana. Ou ver sua família em trabalhos mais que precários, enquanto sua casa definha para que ele possa concluir a graduação, seria uma escolha humana? Certamente não, quando o sofrimento de todos ao seu redor é tão explícito, tão recorrente.

Shoaib, por sua vez, é um jovem trabalhador que, assim como o amigo, vê no cargo público uma oportunidade de dar uma vida digna à família. Ao ver o pai sofrer com uma lesão no joelho que promete ser permanente, ele percebe que não há forma de vencer — mas decide lutar até as últimas consequências.

Todo o seu talento para vendas e o seu trato com as pessoas são subvalorizados em função de sua origem étnica e religiosa. Não é que lhe falte algo, mas que não há lugar ao sol para todos. Essa ideia de escassez, ainda que irracional, está incrustada na mente de um povo que não a enfrenta, mas se organiza conforme essa lógica — para manter os poucos privilégios que possui, para ter alguém a subjugar, para mandar sentar ao chão e comer com as mãos.

Na economia de mercado, é essencial que existam classes distintas de pessoas. Esse mecanismo garante mão de obra em tempos de crise e condiciona a classe trabalhadora a acreditar na promessa de ascensão. Numa Índia dividida em castas, esse processo é ainda mais fácil, pois se apropria de uma hierarquia pré-existente.

Neste sentido, há uma cena bastante impactante em que um guarda permanece em seu posto numa fábrica fechada em decorrência dos lockdowns durante a pandemia de COVID-19. Quando perguntado por que seguia ali, responde que, se saísse, seria substituído por outro.

Essa mensagem, tão bem ilustrada, é o grande acerto de Ghaywan. A montagem, linear e previsível, é estrategicamente clara para que a mensagem não se perca — para que o espectador não se deixe levar por subtextos mais profundos em prejuízo do argumento central.

Embora seja interessante ver um centro urbano indiano vazio durante a quarentena, a fotografia realista não chega a ser memorável. A opção de Ghaywan por um registro quase documental é válida, mas, em termos estritamente visuais e estilísticos, as imagens ficam aquém da potência da mensagem. Alguns simbolismos — como os pés rachados da mãe de Chandan — parecem incorporados mais para preencher o filme do que por sua real necessidade narrativa.

É verdade, também, que o roteiro tem alguns problemas. Muitas atitudes são incompreensíveis, mesmo considerando a barreira cultural. Uma decisão particularmente tola, já muito próxima ao fim, é tomada apenas para justificar a última grande virada da história.

Assim é Homebound: uma mensagem essencial em um envelope imperfeito. Há, sem dúvida, a gana artística de um realizador em sustentar uma crítica, mas faltam os detalhes — algum refinamento estilístico capaz de potencializar o peso argumentativo.

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