Fatima, a caçula de uma família franco-argelina, atravessa a delicada aurora da juventude entre rezas e sonhos, festas e medos. Quando sua atração por mulheres surge, ela se pergunta qual parte de si mesma poderá amar livremente — a filha obediente, a irmã exemplar, ou a mulher que ousa existir.

A Irmã Mais Nova nos apresenta a história de Fatima (Nadia Melliti), uma jovem muçulmana que está terminando o ensino médio e que, secretamente, é lésbica. O ponto mais interessante neste trabalho de Hafsia Herzi é que ela enumera alguns fatores responsáveis pela construção da homofobia interna — notavelmente o bullying homofóbico nas escolas e a religiosidade nas famílias.
O cenário em que somos introduzidos é o da França urbana contemporânea, quase idêntico ao de qualquer outra metrópole europeia: há forte imigração, vida noturna efervescente e diversidade étnica e sexual. Esses fatores, cada qual ao seu tempo e motivo, atravessam a história de Fatima, por ser filha de uma família imigrante e estar vivenciando seu processo de despertar sexual.
Essas pequenas familiaridades atmosféricas entre a trama de Fatima e a vida cotidiana de grande parte da população chamam o espectador para dentro da história da jovem. Sob sua visão, o público vive a angústia de esconder quem é, a felicidade sacana de descobrir o que não deve, a frustração de não entender as motivações alheias. É, em verdade, um cinema bastante humano — do tipo que transforma o espectador pela empatia.
Ao ver Fatima ter suas primeiras experiências amorosas e sexuais, num coming-of-age pé no chão, sem deslumbre, volto às minhas primeiras vezes e sinto novamente o frio na barriga e o suor nervoso escorrer pelas têmporas. O nervosismo de um primeiro encontro, que faz a protagonista fechar-se num escudo de introspecção para não demonstrar sua vulnerabilidade, é um dos retratos mais simbólicos e importantes da obra.
Sua jornada, ao contrário da minha, é bastante solitária — tudo ela descobre sozinha, sem ter com quem compartilhar, pedir sugestões ou tirar dúvidas. A homofobia interna age na vida de Fatima isolando sua sexualidade em uma personalidade à parte, um alter ego. De um lado, há Fatima, irmã mais nova, melhor aluna da classe, motivo de orgulho da família e amiga descolada de seu grupo. Do outro, a “sapatão imunda”.

É desolador vê-la enfrentar sozinha o seu processo de autoconhecimento, inclusive colocando-se em situações de perigo ou naquelas que, sabemos, tornar-se-ão arrependimentos. Mesmo quando se empodera do seu eu sexual, ela permanece sozinha — tanto quando precisa esconder da família e dos amigos quanto nos momentos em que, vivendo seu desejo, fica à mercê tão somente dos seus instintos e de uma sociabilidade atrapalhada.
Seus momentos mais felizes são ao lado de Ji-Na, que se torna sua primeira namorada. Em sua companhia, Fatima finalmente tem alguém com quem pode dividir o que sente; porém, também com ela, vive sentimentos que até então desconhecia e que, por vezes, machucam. A química entre as duas é instantânea e magnética — seus beijos apaixonados explodem a intensidade de um primeiro amor.
É verdade, porém, que temos alguns problemas de roteiro. Não faltam pontas soltas, subtramas interrompidas, questões que se abrem e nunca chegam a uma resposta. Talvez, como Fatima, Herzi ainda tenha um processo de amadurecimento à sua frente, em termos de acabamento.
O cinema da diretora já é potente e oportuno, sabendo utilizar os recursos da câmera e da pós-produção para potencializar sua mensagem. Falta, no entanto, trabalhar na história que pretende contar e em uma montagem que não deixe espaço para arcos inacabados e passagens sem função narrativa.
O saldo final, portanto, é bastante positivo para quem aprecia um cinema mais cru, com urgência de comunicar, de transformar o mundo. Herzi é uma regente intuitiva e corajosa, com muito a mostrar e um tanto a evoluir. Seu trabalho em A Irmã Mais Nova resiste com solidez aos deslizes do roteiro, apoiado numa mensagem poderosa de amor-próprio.

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