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cinema | poesia | verdade

A história do Som (The history of Sound)

Avaliação: 3 de 5.
Oliver Hermanus | Reino Unido/Estados Unidos/Suécia, 2025.

A História do Som é uma história de amor — um capítulo na vida de um homem, com começo, meio e fim; verso, refrão e ponte. Os sentimentos de Lionel (Paul Mescal) se confundem com os acordes de uma melodia antiga, como a letra de uma canção transmitida de geração em geração nas comunidades rurais isoladas dos Estados Unidos.

No conservatório, ele conhece David (Josh O’Connor), o grande — e breve — amor de sua vida. O curto período que passam juntos é o melhor de ambos: um instante que dá sentido às suas jornadas, que dá som aos rabiscos de uma partitura.

Esse amor, no entanto, é pesado demais para David, que, distraído pela melancolia do mundo e de si mesmo, parte da vida de Lionel. Este, amparado por seu talento, embarca para a Europa e torna-se reconhecido por seu trabalho, sem jamais se libertar da lembrança do que deixou para trás.

O filme caminha devagar em seus dois primeiros atos — talvez um pouco demais. Os momentos entre os protagonistas, que formam a espinha dorsal desta história, são silenciosos e sutis, de modo que não correspondem à intensidade do romance e deixam o relevo emocional da narrativa plano pela maior parte do tempo.

O ato final, por outro lado, é onde o coração do filme bate com força. É ali que descobrimos, de forma retrospectiva, o que se escondia por trás do silêncio de David — e, enfim, a mensagem do filme é enunciada em alto e bom som, ecoando de uma antiga caixa de som.

A fotografia é desbotada, o que reforça o caráter subsidiário das imagens nesta história — aqui, são a trama e o som que importam. É, porém, uma escolha que acaba por desprestigiar uma ferramenta essencial do cinema: afinal, é pelos olhos que recebemos os estímulos mais vivos e elétricos.

Esse nível emocional mais baixo também se torna evidente na montagem, que nunca pisa no acelerador, mantendo uma letargia fria. Até o desfecho final, há uma economia de sentimentos — uma potência diluída, um amor aguado. O som, sozinho, não consegue elevar o espírito do público ao âmago deste romance.

Vale também destacar os trabalhos de Paul Mescal e Josh O’Connor, que se envolvem numa química tão singela quanto visceral, silenciosa e gutural. Enquanto o primeiro encarna o olhar do público — aquele que tenta compreender e traduzir os acordes —, o segundo é o mistério, a partitura que tentamos decifrar em vão, até descobrirmos, ao final, a fúnebre melodia.

A vida não é maior nem menor que o amor — e vice-versa. Em cada existência cabe apenas a quantidade exata de amor que podemos suportar, e sem a qual não podemos viver. Quando os costumes do mundo separam dois amantes, não é só o romance que se rompe: é a própria vida que se despedaça.

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