Após deixar a crítica para trás, o jovem Jean-Luc Godard decide que fazer cinema é a melhor forma de comentá-lo. Com o apoio relutante de um produtor e a colaboração de François Truffaut, ele transforma uma ideia simples sobre um casal marginal em um dos filmes mais revolucionários da história: Acossado.

“Carta de amor ao cinema” já se consolidou como um gênero à parte dentro da epistemologia da sétima arte. Centenas de diretores já abriram seus corações nesse tipo de filme-serenata, e agora chega a vez de Richard Linklater. Ele o faz escolhendo um recorte bastante específico: os bastidores do primeiro longa-metragem de Jean-Luc Godard (Guillaume Marbeck), o célebre Acossado.
O diretor, que tem um tino característico para a comédia, consegue dissolver o teor excessivamente acadêmico, inerente ao tema, com a leveza do roteiro. Os diálogos, recheados de referências à Nouvelle Vague francesa e ao jornalismo crítico da Cahiers du Cinéma, são genuinamente divertidos, ampliando o alcance do filme para além dos cinéfilos habituais.
O Godard de Linklater não é uma figura mítica e intocável. Muito pelo contrário: ele desmistifica o peso desse nome na história do cinema através de um retrato humano e vulnerável. É um Godard iniciante, que dirigia pela primeira vez um longa-metragem — ingênuo, perdido, mas charmosamente insolente.

Sua distinção não reside no domínio técnico do cinema, mas em seu posicionamento enfático (e autoritário) sobre a função da sétima arte. Esse traço forte de personalidade, embora posteriormente aclamado pelas audiências, foi um problema para liderar uma equipe de técnicos e agradar ao produtor que lhe confiou o investimento da obra.
A verdade é que nem ele próprio parece convencido de sua capacidade. No começo, ainda vaidoso, insiste em seu método-manifesto, mas vai se dando conta da própria falibilidade no decorrer das filmagens. O roteiro, de forma bastante inteligente, nos permite vislumbrar o início de um processo de amadurecimento artístico do diretor, deixando claro, porém, que tal questão não se resolve no filme. Em outras palavras, a produção de Acossado foi o pontapé inicial desse percurso criativo.
As relações de Godard com sua equipe compõem o coração do filme. Eles não apenas funcionam como contraponto à excentricidade do protagonista, mas também possuem arcos próprios, voltados à relação de cada um com a produção do clássico — da escalação ao corte final.

A Jean Seberg de Zoey Deutch é encantadora, não apenas pela beleza, mas pela inteligência artística, sendo a única da equipe capaz de desafiar as decisões de Godard. Suas imitações do diretor são divertidas e quebram a densidade das cenas mais teóricas, ainda que fica evidente o seu descontentamento com os rumos da produção.
Aubry Dullin representa um Jean-Paul Belmondo também em início de carreira — terno e caloroso com os colegas. Seus olhos marejados à la James Dean refletem a beleza do cinema antigo, em que cada cena era uma pintura e os atores se preocupavam em ser expressivos, não naturais. Sua lealdade pessoal a Godard o impede de questionar a visão artística do diretor, demonstrando confiança e entrega absoluta ao comando dele.
A escolha pela fotografia em preto e branco não é vã, como ocorre em boa parte dos títulos contemporâneos. Também não é inovadora — mas se justifica, obviamente, pelo contexto e ressalta a beleza dos atores, o formato de seus rostos e cabelos.
O cinema de Godard é um paradoxo: ao mesmo tempo livre e dogmático, e nos indaga — se não é possível ser livre no cinema, que dirá na vida? Se há alguém cuja licença poética permite enquadrar a arte em uma definição fechada, esse alguém é Godard.

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