1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3)

Avaliação: 2 de 5.
Christian Petzold | Alemanha, 2025.

Os olhares de duas mulheres se cruzam por um breve momento, gerando um estranhamento e uma atração inexplicáveis — como num reencontro de almas. O destino trata de reuni-las pela tragédia, um elemento recorrente para uma delas, e daí surge uma relação intensa, feita de interesses difusos e silêncios.

Desde o início, paira um mistério no ar. São vários os elementos que sustentam esse clima: as atitudes de todos os membros da família em relação à chegada de Laura (Paula Beer), a curiosidade dos vizinhos “idiotas”, algumas outras pistas deixadas pelo roteiro, etc. A única que parece não notar tamanha estranheza — ou que escolhe ignorá-la — é Laura, que, sempre que pode, reafirma sua vontade de estar naquele lugar.

A grande quantidade de pistas e a previsibilidade do desfecho não ajudam a manter o suspense nem a criar uma revelação que seja recompensadora ao espectador. O prolongamento do mistério, com direito a interrupções abruptas quando a revelação está prestes a vir à tona, promete um impacto que nunca chega.

Algumas atitudes são inexplicáveis, a começar pela postura da protagonista, que possibilita toda a premissa. Ora, quem, após sofrer um grave acidente, recusa tratamento hospitalar e pede para se hospedar na casa de alguém que nunca viu antes não pode reclamar da insanidade alheia. E as contradições de Laura não param por aí. Ela se sente profundamente ofendida ao descobrir que está sendo explorada afetivamente pela família — sendo que foi ela, em primeiro lugar, quem buscou um refúgio emocional em Betty (Barbara Auer), em sua casa e em seu modo de vida.

Também são inconsistentes os comportamentos de Richard (Matthias Brandt) e Max (Enno Trebs), principalmente o primeiro. Num piscar de olhos, ele passa de um marido preocupado e consternado com a situação da esposa a um esposo amoroso, que caminha de mãos dadas com ela e come torta de ameixa à tarde.

A única personagem escrita de forma coerente é Betty. Ela sustenta uma postura doce, sublime e rígida, respondendo com cuidado estratégico e fascínio às atitudes de Laura — como quem atrai o passarinho para a gaiola. Desde o seu primeiro frame, o olhar de Betty carrega uma gravidade melancólica — talvez o que tenha chamado a atenção de Laura em primeiro lugar. Seu agir vago chega, num breve momento, a confundir até o espectador, que se pergunta em qual perspectiva confiar.

Revelado o mistério, sem grandes surpresas, a postura de todos, mais uma vez, desafia a lógica da normalidade — o que poderia ser uma qualidade, se não parecesse apenas uma saída conveniente.

Um ponto positivo, por outro lado, está nas atuações. Paula Beer é sempre maravilhosa, mas, desta vez, é Barbara Auer quem brilha mais intensamente no céu de Petzold. Ela conduz com maestria o retrato de uma mulher de exterior sereno e leve, mas cujo interior carrega um turbilhão de perturbações. Esse equilíbrio entre a intimidade e sociabilidade é tão preciso que cria um fascínio — uma aura de curiosidade — em torno da personagem.

Tecnicamente, também é um trabalho competente e eficaz. A fotografia é habilidosa porque consegue explorar a claridade mantendo o mistério. Como maioria das cenas são diurnas e em ambiente externo, cria-se uma espécie de suspense solar.

É difícil entender o propósito de Mirrors no. 3. É uma história simples, fácil de acompanhar e de se envolver, mas que não oferece subsídios para o processo de reflexão do espectador, tampouco dá fechamento aos tópicos que abre. Isto é: o final não é aberto, mas também não é fechado. É um meio-termo frustrante — sobretudo para quem se engajou no suspense de sua narrativa.

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