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Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters)

Avaliação: 2.5 de 5.

Em “Guerreiras do K-Pop“, temos a resposta de Hollywood a uma demanda geracional gigantesca, que consome cultura pop de uma maneira bem diferente do que se fazia há uma década. Para ilustrar sua compreensão do movimento K-pop, a dupla de diretores brinca com as ideias de identidade e artificialidade, não como pontos opostos, mas como conteúdo e continente.

Os problemas aparecem no nível artístico — não que conceitualmente o filme seja redondo, mas pelo menos há uma intenção clara do que se pretende abordar. Aqui podemos apontar, por exemplo, as sequências de luta que reproduzem uma estética de videogame e desvalorizam o visual da obra; as cenas de concertos que tentam, mas não conseguem emocionar; ou a utilização de técnicas de animação típicas de animes — escolha que não poderia ser mais óbvia. São várias pequenas questões que comprometem a construção de uma personalidade visual consistente, de forma que o filme nunca consegue encontrar uma assinatura própria.

Mas também há o que funciona! Algumas piadas de cultura pop soam refrescantes, sobretudo na apresentação das protagonistas — aliás, o enfoque em suas personalidades logo no início do longa é um aspecto que emula o mundo real do K-pop e que opera muito bem do ponto de vista narrativo, já que se criam oportunidades de construir e desenvolver as personagens, o que é importante principalmente no primeiro ato de uma história.

O que há de melhor, no entanto, é a organização dos demônios, numa releitura neon do inferno (esse, sim, visualmente interessante), possivelmente a parte mais intrigante da história — de modo que tudo o que envolve o lado antagonista parece mais interessante do que o mundo das mocinhas. As motivações dos vilões, por exemplo, são mais profundas e adultas, contrapondo-se à motivação genérica das protagonistas.

A exceção, claro, é o que motiva Rumi, que também serve como virada de chave narrativa e calibra a história ao lado do plano de dominação dos demônios. É verdade, porém, que mesmo aqui muitas coisas ficam mal explicadas — uma pena, porque a história dos pais de Rumi parece realmente curiosa, e o roteiro trabalha de forma a instigar o espectador a conhecê-la, o que nunca acontece.

Jinu, por sua vez, tem uma jornada de vilão mais estimulante, com direito a retrospectiva do passado e arco de redenção, tornando-se o personagem mais bem escrito da história. Quanto a seus companheiros de banda, a trama ensaia um aprofundamento que nunca ocorre de fato, de sorte que essas personagens terminam o filme sem um final próprio.

A grande protagonista divide um vínculo inexorável com o principal antagonista. Há, para ambos, um momento crucial chegando, sem possibilidade de fuga ou atraso. E assim o filme se torna sobre a escolha que cada um precisa fazer para enfrentar esse momento. O problema é que, quando essa questão principal é estabelecida, todo o resto é esquecido — notavelmente tudo o que concerne às outras Huntrx, que só voltam a ser importantes já bem no final. Suas histórias pessoais são apresentadas, mas não recebem um fechamento real, apenas uma solução geral e genérica, tal como ocorre com os membros da boy band.

As músicas não são particularmente interessantes, mas a maioria delas desempenha, de fato, uma função que movimenta a história — de maneira que, pelo menos tecnicamente, o uso está correto.

No nível moral, é sobre aceitar a parte sombria que habita em cada um de nós. Não é nem um pouco inovador, mas ainda é uma mensagem importante e alinhada com as questões do momento, principalmente para o público juvenil. É verdade, no entanto, que às vezes a metáfora sobre aceitar-se por inteiro poderia ser um pouco mais sutil, voltando menos ao centro da narração ou deixando algumas mensagens subentendidas.

No todo, há uma quantidade razoável de acertos, principalmente quando considerado o contexto e o público do filme. É uma obra pensada para dialogar com uma geração, suas referências, piadas e memes. Esse cuidado, no entanto, prejudica a autenticidade e não eleva a discussão (que tem sua importância) para além do óbvio e do previsível, subestimando seu público e contradizendo sua própria mensagem.

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One response to “Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters)”

  1. Avatar de danyoshio
    danyoshio

    5 ⭐ pra essa Review! Sensata, concisa e cirúrgica

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