1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme)

Avaliação: 1.5 de 5.
Wes Anderson. Estados Unidos, 2025.

Como era de se esperar, a mão de Anderson pesa bastante na direção – o que não é particularmente um defeito, mas dado o tom quase que caricatural, pode ficar um tanto cansativo. Se de um lado é louvável que um diretor imprima seus traços de autoria em seus trabalhos, por outro lado, quando esta atitude se transforma num exercício insistente de auto referência, cria-se um vazio, uma espécie de parnasianismo cinematográfico.

Esta escolha artística acarreta resultados muitos interessantes do ponto de vista da relação entre obra e espectador. Há uma precisão milimétrica na forma, uma beleza obsessiva que prende o público no seu encanto, ao mesmo tempo em que o conteúdo é de uma frieza irremediável. Esse movimento de aproximação e afastamento não parece ser especificamente desejado pelo realizador, mas funciona para dinamizar o relacionamento entre o filme e quem o assiste.

Isso dá certo porque o fluxo emocional não é um elemento particularmente relevante neste caso, de forma que “relaxar” a tensão não signifique propriamente perder o interesse no filme. A verdade é que Anderson dispõe sua história como uma verdadeira planície narrativa, praticamente sem relevos ou depressões, numa constância perturbadamente branda — chata!

E aí temos um outro problema: sempre que Anderson propõe um caminho menos ortodoxo — uma cena mais ousada, um rompante de energia que deveria reavivar a diversão e a surpresa —, nada funciona. Depois de tantas experimentações de forma, nada mais é suficientemente diferente para injetar vida no filme. Há quase um processo arbitrário de esgotamento, uma tentativa deliberada de tornar o público mais resistente às sutilezas.

Também pesa a questão da história em si: nem interessante, nem bem desenvolvida, ela serve apenas de pano de fundo para os experimentos cênicos — uma justificativa pouco convincente para a sucessão de pequenos momentos de prazer cínico e imediato que as cenas exuberantes proporcionam. Assim, não há uma razão de ser clara para a obra, ao menos do ponto de vista narrativo. O fio condutor do relato parece mais um improviso mal acabado do que uma escolha consciente.

O ritmo é bom. A sequência de eventos mantém uma cadência constante e suave, ainda que o andamento se acelere levemente no ato final. A decisão de retratar o “confronto final” como um verdadeiro besteirol é, paradoxalmente, o maior acerto do diretor — uma autossabotagem que funciona.

Por último, há que se ressaltar o único ponto realmente forte do filme: o trabalho de Benicio Del Toro. Sua presença organiza os elementos cênicos — ainda que a composição das cenas não fosse exatamente um problema, é ele quem determina o esquema espacial. O olhar impositivo, rasteiro e atrevido talvez seja o principal subsídio para a construção de uma personagem genuinamente interessante em meio a todas as amenidades requentadas da obra.

No fim, toda a pompa pesa mal para Anderson. Mesmo dispondo de um elenco estelar e de uma produção repleta de recursos, ele entrega menos do que um bom trabalho. Há pouca coisa realmente estimulante — quase tudo parece reciclado de filmes anteriores — e uma ausência quase absoluta de alma.

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