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cinema | poesia | verdade

A Hora do Mal (Weapons)

Avaliação: 4 de 5.
Zach Cregger. Estados Unidos, 2025.

Com uma premissa interessante, direção firme e atuações distintas, A Hora do Mal se consolida como um dos grandes filmes de gênero de 2025. Sua narração trepidante prende o espectador logo nos primeiros minutos, e a opção de montagem — mostrando a perspectiva de diferentes personagens em linhas do tempo paralelas — não é algo particularmente novo nesse tipo de obra, mas funciona perfeitamente.

Uma escolha crucial, feita de maneira inteligente, diz respeito à ordem dos segmentos que correspondem à visão de cada personagem sobre os eventos narrados. Aqui, é necessário que essa disposição revele gradualmente os mistérios da trama, de forma que sempre haja algo novo a se descobrir no próximo segmento e, mais que isso, que sejam criados ganchos narrativos a serem explicados nas partes seguintes.

É justamente na montagem que a força da direção melhor se exprime, demonstrando um controle minucioso sobre quais informações expor e quais emoções provocar no espectador a cada momento. Mas há outros méritos, dentre os quais uma fotografia bastante decidida sobre o que quer mostrar e como mostrar — por vezes ocultando um elemento da tela ou permanecendo insistentemente em determinada imagem para deixar claro que algo tem importância para a história e que o espectador precisa assimilar aquela informação.

Também há uma forte qualidade autoral no uso de elementos imagéticos e simbólicos que dão pistas sobre os mistérios do enredo, notavelmente em uma sequência de sonho consciente na qual a imagem de um objeto crucial para o conceito do filme paira sobre uma casa vazia. Os jump scares, apesar de dispensáveis, não prejudicam o filme — pode-se dizer até que contribuem para trabalhar o conceito de brega e pitoresco fortemente ligado a uma das personagens.

Tudo isso vem no sentido de criar uma assinatura forte para Zach Cregger, diretor jovem e com raízes na comédia. Aliás, é bem perceptível o tom de sátira e subversão típicos da boa comédia, que permeiam esta história de terror num estilo um tanto Jordan Peele — com o perdão da obviedade da comparação. Essa assertividade de tom, característica dos realizadores mais maduros, é o grande cerne da promessa de Cregger enquanto artista e, se bem trabalhada, resultará em outros grandes filmes no futuro.

Outro ponto que precisa ser destacado são as atuações: aqui não há espaço para sutilezas. Cregger gosta do drama, dos gritos histéricos, dos olhos esbugalhados e da maquiagem caricata — e eu também. Sente-se até mesmo uma inspiração nos grandes filmes da Hollywood da década de 60, quando as performances se aproximavam mais do estilo teatral, sem grandes preocupações em emular comportamentos naturais. Pense, quem sabe, em O Que Terá Acontecido a Baby Jane? ou mesmo em Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? — é claro, sob uma perspectiva contemporânea, mas valorizando o escândalo, dignificando essa extravagância que a tanto se perdeu diante da imposição de um cinema de arte sofisticado e rarefeito.

Julia Garner e Josh Brolin recebem personagens muito bem escritos: são problemáticos, difíceis de gostar, mas têm motivações bem definidas e plausíveis. A abordagem de ambos é bastante parecida — o que mais uma vez demonstra o pulso firme da direção. Eles oscilam entre momentos de introspecção e exaltação, mudam a direção das emoções rapidamente em resposta aos acontecimentos da trama e conseguem demonstrar força envolta em vulnerabilidade, agregando camadas às personagens.

O grande destaque é a fantasticamente esquisita Amy Madigan. Os supramencionados “brega” e “pitoresco” referem-se à figura da Tia Gladys, personagem que não ocupa a centralidade da narração, mas que embasa toda a premissa do filme. É um papel inerentemente difícil, porque, embora seja inicialmente apresentada em sua forma mais caricata, sua personalidade, seus trejeitos e, por vezes, sua aparência mudam constantemente, a depender da presença ou não de outras personagens e do nível de dissimulação que cada momento exige dentro de sua estratégia de controle.

Há o que se falar sobre o final da obra — apoiado em uma escolha narrativa divisiva e muito dependente da subjetividade do espectador. Particularmente, devo dizer que o recebi bem: há humor, um forte apelo ao sentimento de satisfação alimentado durante todo o longa, dinamismo e, o mais importante, há plausibilidade dentro do universo proposto. Embora não seja realmente genial, o mecanismo que finaliza a história é plenamente explicado pelas informações até então dispostas.

É verdade, porém, que nem tudo é bem explicado. Algumas soluções aparecem apenas como sugestão — o que é válido —, mas outras pontas precisariam de um desenvolvimento melhor para arredondar o roteiro. A própria motivação da vilã é um tanto nebulosa, de maneira que uma simples sugestão não é suficiente para explicá-la satisfatoriamente. Algumas das consequências do desfecho final também são contraditórias, como os diferentes desenlaces para personagens em situações idênticas e submetidas a um mesmo processo.

Essa falta de polidez narrativa realmente prejudica a memória do filme, mas não atrapalha a experiência de vivenciá-lo, aparecendo tão somente no processo de reflexão e assentamento das informações. Isso resulta, mais uma vez, do controle (quase autoritário) da direção, que manipula com precisão a experiência do espectador.

Ao fim e ao cabo, Weapons é um grande êxito para o cinema de terror. Consegue trazer frescor e elementos novos mesmo com o uso de algumas fórmulas, tem fortes estímulos visuais e é pensado como cinema — não apenas como história. Isto é, o filme preocupa-se minuciosamente com a experiência de assisti-lo, com as emoções que pretende desencadear e em prender, desde logo, o espectador.

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