Para celebrar um ano para o cinema, a 1001 Filmes resolveu publicar a sua primeira lista, contendo 10 grandes obras do cinema mundial, escolhidas, dentre muitas opções, pela potência que carregam — filmes capazes não só de definir o cinema de um ano, mas também de deixar uma marca duradoura na memória cinematográfica.
A lista está organizada em ordem alfabética, mas contém as respectivas notas. Ao final, mencionamos 5 filmes que, apesar de estarem fora da lista, merecem um reconhecimento especial pela sua qualidade e impacto.
Observação: Os países indicados nos textos como origem dos filmes restringem-se àqueles de maior relação narrativa e artística com a obra e consideram, ainda, as nacionalidades de suas respectivas equipes criativas. O ano de 2024 refere-se ao lançamento nos Estados Unidos da América — recorte selecionado por convenção, a fim de facilitar a classificação.
Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui é uma poderosa evidência da força transformadora do cinema e seus espectadores são testemunhas do impacto profundo que a obra desencadeia. Feito com admirável precisão técnica, seus fatores se organizam para contar a história de extraordinária Eunice Paiva com sutileza e respeito, coordenando uma desesperadora dualidade entre leveza e pesar.
É um filme que define as posições de Walter Salles e Fernanda Torres como grandes expoentes do cinema nacional. Tem-se uma sinergia entre dois experientes maestros — um em cena e outro por trás das câmaras, que dividem o comando da narrativa com generosidade e profunda conexão.
NOTA: 84
O Brutalista (The Brutalist)

A jornada de László Toth, sobrevivente do holocausto e especialmente vocacionado à arquitetura, é elevada condição de clássico sob o comando de Brady Corbet. O Brutalista é monumental, majestoso, um épico moderno que consagra Corbet como um dos mais talentosos realizadores da atualidade. Aqui não há qualquer vergonha ou hesitação em perseguir a perfeição, traçando um delicioso paralelo entre Corbet e seu protagonista — vorazmente interpretado por Adrien Brody, em seu melhor trabalho até o momento.
Toth enfrenta dor de se saber maior do que lhe é permitido ser, de adequar-se à mediocridade em função da sobrevivência e do amor em uma soberba inebriante, frustrada e plenamente justificada. Viver sob a condenação da excelência e da verdade artística é uma experiência conturbada, consubstanciada numa luta pelo controle: o homem versus o arquiteto, o mortal e a máquina, o brutalista.
NOTA: 88
O Conde de Monte Cristo (Le Comte de Monte-Cristo)

O Conde de Monte Cristo soa como um clássico já a partir de suas primeiras cenas, reservando um lugar precioso entre as grandes obras do competitivo cinema francês. A linha adotada pela produção garante que nenhum aspecto individual possa se sobrepor ao conjunto da obra. Tal escolha é válida e tem sentido, mas acaba por cercear um ou outro elemento artístico que poderia receber um maior destaque — as atuações são o exemplo principal.
No entanto, uma contribuição salta aos olhos, em meio a tantas outras participações excelentes das equipes técnicas: o trabalho de montagem é o que enverniza o filme de seu caráter grandioso. Sem uma edição capaz de amarrar cada um destes elementos, valorizando-os ao máximo, de nada valeria tamanho esforço empregado pela produção.
NOTA: 78
Furiosa: Uma Saga Mad Max (Furiosa: A Mad Max Saga)

Furiosa: Uma Saga Mad Max faz um bom trabalho em honrar seu antecessor — responsabilidade imensa, diga-se de passagem. Embora não alcance o sarrafo do irreparável Mad Max: Fury Road, de 2015, é um trabalho minuciosamente executado por seu criador para garantir que a qualidade da produção esteja à altura daquele.
O maior dos problemas em realizar esse tipo de prequela é solucionado pelo filme: Furiosa se justifica dentro do universo de Mad Max reimaginado por Miller em 2015, sua existência é pertinente de modo a fazer sentido na análise dos filmes como um conjunto.
Aqui a história da protagonista é detalhada e (bem) desenvolvida a partir do esboço anterior. O roteiro não deixa margem para contradições, pelo contrário: muitas das motivações da personagem no primeiro filme são construídas neste, com força argumentativa e naturalidade.
Vale destacar, por fim, que a escolha de Anya Taylor-Joy é acertada. Embora passe longe da presença magnética de Charlize Theron, em sua redenção, a atriz responde de forma satisfatória a personagens do tipo fechado e observador, traços que bem correspondem a uma versão mais nova de Furiosa, nos termos em que os filmes de Miller a apresentaram.
Queer

Uma marca distintiva do cinema de Luca Guadagnino é a sua sensibilidade à condição humana. Em Queer não é diferente: ele fez de uma caricatura, um homem. Um homem vicioso, profundamente defeituoso, quase que insuportavelmente desagradável e melancólico, mas ainda um homem.
Neste estudo de personagem, os traços que definem a personalidade do protagonista vão sendo cuidadosamente colocados no decorrer da obra, maquiados sobre uma louvável benevolência do diretor que faz questão de justificá-los. Ele é um produto da solidão, do desamor e da repressão, encontrando no sexo um refúgio, um alívio efêmero para a sua mendicidade emocional. O seu retrato, entretanto, corporificado pela intensa entrega de Daniel Craig, é afetuoso. O abraço que Lee tanto esperava se vê transbordar pelo amor de um diretor generoso.
NOTA: 78
O Reformatório Nickel

O Reformatório Nickel destaca-se pela habilidade de adaptação de uma literatura dolorida em cinema com leveza e beleza. Já no segundo longa de sua carreira, RaMell Ross consegue o feito de elevar uma obra, já tão condecorada, à máxima potência poética, num jogo de tons pastéis e fragilidades. É um cinema de coração e de autoria, que reflete o trato delicado, mas firme, do realizador.
A exploração temática da trama é riquíssima, promovendo um recorte singular para tratar do racismo e seus corolários nos Estados Unidos dos anos 60. O foco é demonstrar a questão social no rosto dos indivíduos a ela submetidos, brincando com a dualidade entre o coletivo e o íntimo, o político e o pessoal, e como essas dimensões se atravessam.
NOTA: 80
Rivais (Challengers)

Já se sabe que o “jeito Guadagnino” de conduzir um filme pressupõe um foco sensível nas suas personagens e relações, mas um traço que vem se acentuando em sua filmografia é a sua capacidade de provocação. Em Rivais, temos o ápice desta qualidade dentre as fantásticas obras de seu portfólio enquanto realizador.
São duas horas e doze minutos de puro tesão, jogos de poder com alto teor sexual e insinuações sem fim. Guadagnino propõe um envolvente teste de controle para o espectador, que se segura na poltrona a cada saque, a cada aproximação indecentemente deliciosa entre o trio de protagonistas. Seu ritmo frenético ganha muito com os trabalhos de edição e trilha sonora, que irradiam a visão do diretor em forma, também, de experiência sensorial.
NOTA: 83
Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness)

Tipos de Gentileza traz um Lanthimos de volta às raízes, mas com o polimento que a experiencia lhe proporcionou. Ele explora o valor da estranheza com a ousadia e a violência de seus primeiros trabalhos, mas com tudo envolto em uma produção robusta, cheia de recursos que colaboram com sua visão artística.
No filme, três histórias são contadas: suas ligações não são narrativas, mas estilísticas (e, de certa forma, espiritual), dentre as quais destaca-se a inteligente opção por repetir o mesmo elenco, em papéis diferentes, para cada um dos segmentos. A escolha de elenco, a propósito, é um dos pontos altos da obra, caracterizada por encontrar arquétipos que muito bem se moldam à proposta do diretor, mesclando a humanidade e a frieza em cada ponto de virada.
Mesmo considerando a solidez da filmografia de Lanthimos, que até o momento não lançou sequer um longa ruim, Tipos de Gentileza é um destaque. Aqui o diretor afirma que o seu forte traço autoral não sucumbirá às convenções de Hollywood.
NOTA: 80
Trilha Sonora para um Golpe de Estado (Soundtrack to a Coup d’Etat)

O melhor documentário do ano é o trabalho do belga Johan Grimonprez sobre a sanguinária colonização de seu país no Congo, utilizando o recorte temporal da Guerra Fria, na qual o gigante africano desempenhou um importante papel.
Sua condução é caracterizada por uma montagem bastante desafiadora, a princípio até intimidadora para o espectador. Mas uma vez que o ritmo vertiginoso se assenta e o contexto é estabelecido, a obra imerge num agitado mar de informações concatenadas, corroboradas por importantíssimos documentos históricos.
A exposição da linha de raciocínio de Grimonprez, apesar de acelerada, é brilhante e corajosa: ele assume uma posição logo de início e, com eloquência cinematográfica, estrutura seus argumentos. É um belo exemplo de que documentários compostos de peças históricas já conhecidas podem levar a novas sínteses e discussões.
NOTA: 87
Tudo Que Imaginamos Como Luz (പ്രഭയായ് നിനച്ചതെല്ലാം)

As imagens capitadas pelas lentes mágicas de Kapadia em Tudo Que Imaginamos Como Luz são repletas de cor e textura. A cada segundo, uma poesia visual diferente engole a tela, consumindo todo o ar ao redor e deixando o espectador atônito com a beleza soberba que um retrato pode reproduzir. É, indubitavelmente, o melhor trabalho de fotografia do ano.
Essa suntuosa moldura enquadra uma história singular, quase mística e no entanto tão real. São três mulheres, cada uma em um diferente momento na vida, mas que encontram uma conexão assombrosa entre si — um laço forjado pela história, pela sociedade e, principalmente, pela condição feminina, em sua complexidade interna e externa.
NOTA: 84
Menções honrosas:
Flow (Straume) – NOTA: 78
Memórias de um Caracol (Memoir of a Snail) – NOTA 77
Conclave – NOTA 76
Duna: Parte Dois (Dune: Part Two) – NOTA 75
Nosferatu – NOTA 75

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