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Os 10 Melhores Filmes de 2024

Para celebrar um ano para o cinema, a 1001 Filmes resolveu publicar a sua primeira lista, contendo 10 grandes obras do cinema mundial, escolhidas, dentre muitas opções, pela potência que carregam — filmes capazes não só de definir o cinema de um ano, mas também de deixar uma marca duradoura na memória cinematográfica.

A lista está organizada em ordem alfabética, mas contém as respectivas notas. Ao final, mencionamos 5 filmes que, apesar de estarem fora da lista, merecem um reconhecimento especial pela sua qualidade e impacto.

Observação: Os países indicados nos textos como origem dos filmes restringem-se àqueles de maior relação narrativa e artística com a obra e consideram, ainda, as nacionalidades de suas respectivas equipes criativas. O ano de 2024 refere-se ao lançamento nos Estados Unidos da América — recorte selecionado por convenção, a fim de facilitar a classificação.

Ainda Estou Aqui
Dir. Walter Salles. Brasil, 2024.

Ainda Estou Aqui é uma poderosa evidência da força transformadora do cinema e seus espectadores são testemunhas do impacto profundo que a obra desencadeia. Feito com admirável precisão técnica, seus fatores se organizam para contar a história de extraordinária Eunice Paiva com sutileza e respeito, coordenando uma desesperadora dualidade entre leveza e pesar.

É um filme que define as posições de Walter Salles e Fernanda Torres como grandes expoentes do cinema nacional. Tem-se uma sinergia entre dois experientes maestros — um em cena e outro por trás das câmaras, que dividem o comando da narrativa com generosidade e profunda conexão.

NOTA: 84

O Brutalista (The Brutalist)
Dir. Brady Corbet. Estados Unidos, 2024.

A jornada de László Toth, sobrevivente do holocausto e especialmente vocacionado à arquitetura, é elevada condição de clássico sob o comando de Brady Corbet. O Brutalista é monumental, majestoso, um épico moderno que consagra Corbet como um dos mais talentosos realizadores da atualidade. Aqui não há qualquer vergonha ou hesitação em perseguir a perfeição, traçando um delicioso paralelo entre Corbet e seu protagonista — vorazmente interpretado por Adrien Brody, em seu melhor trabalho até o momento.

Toth enfrenta dor de se saber maior do que lhe é permitido ser, de adequar-se à mediocridade em função da sobrevivência e do amor em uma soberba inebriante, frustrada e plenamente justificada. Viver sob a condenação da excelência e da verdade artística é uma experiência conturbada, consubstanciada numa luta pelo controle: o homem versus o arquiteto, o mortal e a máquina, o brutalista.

NOTA: 88

O Conde de Monte Cristo (Le Comte de Monte-Cristo)
Dir. Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte. França, 2024.

O Conde de Monte Cristo soa como um clássico já a partir de suas primeiras cenas, reservando um lugar precioso entre as grandes obras do competitivo cinema francês. A linha adotada pela produção garante que nenhum aspecto individual possa se sobrepor ao conjunto da obra. Tal escolha é válida e tem sentido, mas acaba por cercear um ou outro elemento artístico que poderia receber um maior destaque as atuações são o exemplo principal.

No entanto, uma contribuição salta aos olhos, em meio a tantas outras participações excelentes das equipes técnicas: o trabalho de montagem é o que enverniza o filme de seu caráter grandioso. Sem uma edição capaz de amarrar cada um destes elementos, valorizando-os ao máximo, de nada valeria tamanho esforço empregado pela produção.

NOTA: 78

Furiosa: Uma Saga Mad Max (Furiosa: A Mad Max Saga)
Dir. George Miller. Austrália, 2024.

Furiosa: Uma Saga Mad Max faz um bom trabalho em honrar seu antecessor — responsabilidade imensa, diga-se de passagem. Embora não alcance o sarrafo do irreparável Mad Max: Fury Road, de 2015, é um trabalho minuciosamente executado por seu criador para garantir que a qualidade da produção esteja à altura daquele.

O maior dos problemas em realizar esse tipo de prequela é solucionado pelo filme: Furiosa se justifica dentro do universo de Mad Max reimaginado por Miller em 2015, sua existência é pertinente de modo a fazer sentido na análise dos filmes como um conjunto.

Aqui a história da protagonista é detalhada e (bem) desenvolvida a partir do esboço anterior. O roteiro não deixa margem para contradições, pelo contrário: muitas das motivações da personagem no primeiro filme são construídas neste, com força argumentativa e naturalidade.

Vale destacar, por fim, que a escolha de Anya Taylor-Joy é acertada. Embora passe longe da presença magnética de Charlize Theron, em sua redenção, a atriz responde de forma satisfatória a personagens do tipo fechado e observador, traços que bem correspondem a uma versão mais nova de Furiosa, nos termos em que os filmes de Miller a apresentaram.

Queer
Dir. Luca Guadagnino. Estados Unidos, 2024.

Uma marca distintiva do cinema de Luca Guadagnino é a sua sensibilidade à condição humana. Em Queer não é diferente: ele fez de uma caricatura, um homem. Um homem vicioso, profundamente defeituoso, quase que insuportavelmente desagradável e melancólico, mas ainda um homem.

Neste estudo de personagem, os traços que definem a personalidade do protagonista vão sendo cuidadosamente colocados no decorrer da obra, maquiados sobre uma louvável benevolência do diretor que faz questão de justificá-los. Ele é um produto da solidão, do desamor e da repressão, encontrando no sexo um refúgio, um alívio efêmero para a sua mendicidade emocional. O seu retrato, entretanto, corporificado pela intensa entrega de Daniel Craig, é afetuoso. O abraço que Lee tanto esperava se vê transbordar pelo amor de um diretor generoso.

NOTA: 78

O Reformatório Nickel
Dir. RaMell Ross. Estados Unidos, 2024.

O Reformatório Nickel destaca-se pela habilidade de adaptação de uma literatura dolorida em cinema com leveza e beleza. Já no segundo longa de sua carreira, RaMell Ross consegue o feito de elevar uma obra, já tão condecorada, à máxima potência poética, num jogo de tons pastéis e fragilidades. É um cinema de coração e de autoria, que reflete o trato delicado, mas firme, do realizador.

A exploração temática da trama é riquíssima, promovendo um recorte singular para tratar do racismo e seus corolários nos Estados Unidos dos anos 60. O foco é demonstrar a questão social no rosto dos indivíduos a ela submetidos, brincando com a dualidade entre o coletivo e o íntimo, o político e o pessoal, e como essas dimensões se atravessam.

NOTA: 80

Rivais (Challengers)
Dir. Luca Gadagnino. Estado Unidos, 2024.

Já se sabe que o “jeito Guadagnino” de conduzir um filme pressupõe um foco sensível nas suas personagens e relações, mas um traço que vem se acentuando em sua filmografia é a sua capacidade de provocação. Em Rivais, temos o ápice desta qualidade dentre as fantásticas obras de seu portfólio enquanto realizador.

São duas horas e doze minutos de puro tesão, jogos de poder com alto teor sexual e insinuações sem fim. Guadagnino propõe um envolvente teste de controle para o espectador, que se segura na poltrona a cada saque, a cada aproximação indecentemente deliciosa entre o trio de protagonistas. Seu ritmo frenético ganha muito com os trabalhos de edição e trilha sonora, que irradiam a visão do diretor em forma, também, de experiência sensorial.

Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness)
Yorgos Lanthimos. Estados Unidos, 2024.

Tipos de Gentileza traz um Lanthimos de volta às raízes, mas com o polimento que a experiencia lhe proporcionou. Ele explora o valor da estranheza com a ousadia e a violência de seus primeiros trabalhos, mas com tudo envolto em uma produção robusta, cheia de recursos que colaboram com sua visão artística.

No filme, três histórias são contadas: suas ligações não são narrativas, mas estilísticas (e, de certa forma, espiritual), dentre as quais destaca-se a inteligente opção por repetir o mesmo elenco, em papéis diferentes, para cada um dos segmentos. A escolha de elenco, a propósito, é um dos pontos altos da obra, caracterizada por encontrar arquétipos que muito bem se moldam à proposta do diretor, mesclando a humanidade e a frieza em cada ponto de virada.

Mesmo considerando a solidez da filmografia de Lanthimos, que até o momento não lançou sequer um longa ruim, Tipos de Gentileza é um destaque. Aqui o diretor afirma que o seu forte traço autoral não sucumbirá às convenções de Hollywood.

NOTA: 80

Trilha Sonora para um Golpe de Estado (Soundtrack to a Coup d’Etat)
Dir. Johan Grimonprez. Bélgica, 2024.

O melhor documentário do ano é o trabalho do belga Johan Grimonprez sobre a sanguinária colonização de seu país no Congo, utilizando o recorte temporal da Guerra Fria, na qual o gigante africano desempenhou um importante papel.

Sua condução é caracterizada por uma montagem bastante desafiadora, a princípio até intimidadora para o espectador. Mas uma vez que o ritmo vertiginoso se assenta e o contexto é estabelecido, a obra imerge num agitado mar de informações concatenadas, corroboradas por importantíssimos documentos históricos.

A exposição da linha de raciocínio de Grimonprez, apesar de acelerada, é brilhante e corajosa: ele assume uma posição logo de início e, com eloquência cinematográfica, estrutura seus argumentos. É um belo exemplo de que documentários compostos de peças históricas já conhecidas podem levar a novas sínteses e discussões.

NOTA: 87

Tudo Que Imaginamos Como Luz (പ്രഭയായ് നിനച്ചതെല്ലാം)
Dir. Payal Kapadia. Índia, 2024.

As imagens capitadas pelas lentes mágicas de Kapadia em Tudo Que Imaginamos Como Luz são repletas de cor e textura. A cada segundo, uma poesia visual diferente engole a tela, consumindo todo o ar ao redor e deixando o espectador atônito com a beleza soberba que um retrato pode reproduzir. É, indubitavelmente, o melhor trabalho de fotografia do ano.

Essa suntuosa moldura enquadra uma história singular, quase mística e no entanto tão real. São três mulheres, cada uma em um diferente momento na vida, mas que encontram uma conexão assombrosa entre si — um laço forjado pela história, pela sociedade e, principalmente, pela condição feminina, em sua complexidade interna e externa.

NOTA: 84

Menções honrosas:

Flow (Straume) – NOTA: 78
Memórias de um Caracol (Memoir of a Snail) – NOTA 77
ConclaveNOTA 76
Duna: Parte Dois (Dune: Part Two)NOTA 75
NosferatuNOTA 75

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One response to “Os 10 Melhores Filmes de 2024”

  1. Avatar de Tereza L.
    Tereza L.

    Challengers foi um dos meus filmes favoritos do ano!! Mesmo recebendo nenhuma atenção nas premiações.

    Depois dessa crítica, fiquei com mais vontade de ver o brutalista e reformatório nickel.

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