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cinema | poesia | verdade

Praia do Futuro

Karim Aïnouz. Brasil, 2014.

A praia do futuro é perigosa. A ameaça não se limita à maré revolta e às pedras cortantes que assombram sua área de banho — também está na liberdade que representa, um portal para todo e qualquer outro lugar em que se queira estar. Esse pedacinho imenso do oceano atlântico constrói e destrói relações, histórias e pessoas, espumando saudade entre suas ondas e acumulando um ressentimento salgado na sua sufocante maresia.

A Alemanha, por outro lado, é um refúgio solitário. Nessa dimensão, o mar e seus atraentes perigos aparecem pela noite, permitindo que se rasguem os véus, que se revelem as feras escondidas; e somem pela manhã, recompondo as aparências, contendo desejos animalescos e deixando pairar a melancolia no ar congelante.

Todo esse cenário é concebido para tratar das complexidades de Donato: de um lado, a família, brilhantemente simbolizada pela presença de seu irmão mais novo, Ayrton (Jesuíta Barbosa), a história, a profissão, tudo o que ele até então construiu. De outro lado, a liberdade —  essa representada pela figura de Konrad (Clemens Schick), a oportunidade de viver uma vida que seria impossível em Fortaleza, o abraço do afogado, a experiência da sexualidade e do amor sem culpa ou vergonha.

Berlim e Fortaleza, a cruz e a espada. Ficar com um significa, no contexto de Donato, abandonar o outro. A quem o homem ama mais? A si mesmo ou aos outros? Essa é a pergunta que ele hesita tanto em responder, não porque não sabe a resposta, mas porque ela é dolorida demais para ser dita em voz alta, de uma só vez.

Como toda trama tem dois lados, de repente, estamos diante da história de Ayrton. Ele tem muito o que fazer, muito o que dizer, mas o trato gentil com a personagem nos permite visualizar que sua essência permanece. Era só para salvar o irmão que Ayrton enfrentaria a Praia do Futuro, o desconhecido, e assim foi: pegou seu kit de mergulho, aprendeu a falar alemão e foi ao encontro do herói partido no meio.

A relação entre os dois é de uma conexão imensa, maculada por uma rachadura raivosa. Ayrton é o coração, suplicante por amor, clamando por uma explicação, mas Donato agora é um fantasma que só fala alemão e não pode dar todas as respostas que o irmão precisa.

Há uma esperança, no entanto: a chance de um novo começo. Depois de abrir mão de tantas coisas, no caso de Donato, ou de perder tantas pessoas que amou, no caso de Ayrton, é possível juntar os cacos. Não é viável, ou desejável, que seja exatamente como antes mas existe uma aberta que permite que esta relação se desenvolva de uma nova forma.

Antes de ser um excelente diretor, Karim Aïnouz é um exímio roterista. É do desenvolvimento de personagens que seu trabalho brilha mais e, em Praia do Futuro, isso é feito de forma muito afetuosa. Cada uma das personas centrais da trama tem uma perspectiva que se conecta com o espectador e é a síntese de todas essas posições que conduz a trama, as teses e antíteses que vão se construindo.

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