O outrora promissor jóquei Remo Manfredini (Nahuel Pérez Biscayart) vê seus vícios colocarem em risco não apenas sua carreira, mas também sua vida. Após frustrar as expectativas de seus investidores e sofrer um grave acidente, ele se vê obrigado a conciliar a recuperação de sua consciência com o resgate de sua liberdade.

El Jockey é um filme efusivo, que quer muito dizer algo, mas não sabe exatamente o que. Esse impasse consubstancia um conflito trágico entre conteúdo e forma — esta saindo com a vitória esmagadora. Este desequilíbrio, embora presente desde o início, vai se intensificando no decorrer do longa, de forma a afogar o espectador numa enxurrada de visuais que representam, em sua maioria, nada além de um vazio narrativo.
Não há como negar, entretanto, que a estética apresentada é bastante prazerosa, quase indecente de tão gostosa. É um estilo moderno, abrupto, passional e profundamente argentino, orgulhosamente argentino. A câmera faz questão de demarcar os enquadramentos fechados nos rostos — ora com expressões abrasivas e humanas, ora beirando a inexpressividade maquinal —, exceto nos raros momentos em que acompanha o caminhar de uma personagem, geralmente de frente, reforçando a obsessão pelas faces.

É a máxima do “na sua cara”: o valor do choque promovido pela imagética raivosa de Luis Ortega em sincronia com seu diretor de fotografia, Timo Salminen, que justifica a obra. Esse traço de autoria é louvável e constrói um senso de estilo que será merecidamente associado à contribuição de Ortega ao cinema.
O problema não é que o estilo ofusca a narrativa, mas a ausência de uma trama com substância. Não basta apoiar-se em uma premissa interessante se não há empenho em desenvolvê-la adequadamente: dar-lhe nuance, sentido, diálogo e progressão. O resultado é uma sensação de incompletude, um desejo por um impacto que nunca veio — mesmo depois de ser atropelado por uma manada furiosa de cores e formas.
Não é fácil extrair um contexto sociopolítico, ou mesmo temporal, que depreenda algum sentido oculto à obra. Tudo parece perfeitamente ordinário nos dias e nas noites de Buenos Aires ou nas zonas rurais para onde a narrativa, vez ou outra, nos leva. Essa situação, intencionalmente ou não, potencializa a desconexão que estrutura todo o filme e acaba por ser um ponto positivo, pois o não pertencimento é um dos poucos sentimentos que o filme é capaz de causar.
Um último ponto deve ser levantado, pela justiça: a performance protagonista de Nahuel Pérez Biscayart é particularmente interessante. É perceptível a entrega generosa, em nível corporal e intelectual, à visão do diretor, remetendo ao seu fantástico desempenho no francês “120 Batimentos por Minuto”.

O balanço final é bem divisivo, mas tende ao positivo em razão da paixão temperamental com que Ortega conduz (apesar do pesares). O sabor amargo da frustração é o que fica, seja como um lamento pelos tantos temas introduzidos e rapidamente abandonados ou como um sintoma típico de uma comédia negra.
NOTA: 53

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