Uma família ousando viver apesar de uma sanguinária ditadura militar no Brasil dos anos 70, vê suas estruturas irem abaixo quando o luminoso patriarca, Rubens Paiva (Selton Mello) é sequestrado por agentes do Estado. Na ausência do marido, Eunice Paiva (Fernanda Torres & Fernanda Montenegro) é abruptamente alçada à condição de responsável por reestruturar a família e procurar por Rubens.

Dentre os diversos fatores que corroboram para o impacto perene e silencioso de Ainda Estou Aqui, merece destaque o ritmo com que o diretor Walter Salles conduz a trama. Trata-se de uma conjunção irrepreensível de uma direção habilidosa e uma montagem que entende e compartilha o espírito da obra, fazendo-a queimar numa chama lenta e sóbria.
Há tempo para associar e significar cada momento, cada gesto e olhar. O espectador pode digerir as imagens na tela e transformá-las em sentimentos – assistir ao enrijecimento de um regime autoritário e lamentar, de forma retrospectiva, por todos aqueles vitimados pelo regime de sangue, sem deixar, no entanto, de visualizar os paralelos entre o “antes” e o “agora”. Nesse sentido, Ainda Estou Aqui é capaz de modelar a visão de mundo de quem o absorve — uma característica do bom cinema, do cinema que resiste ao tempo.
Comandando um elenco impecável, Fernanda Torres dá a Eunice Paiva a melhor atuação de sua carreira — assim como Eunice dá a Fernanda o seu melhor papel até momento. E que troca generosa! Sob o comando dessa força da natureza, a tela reflete a maestria dos talentos envolvidos e a força indestrutível de uma mulher: suas muralhas externas e seu inquietante, borbulhante vulcão de emoções que queima seu interior e escapa em direção ao espectador atento através de um olhar marejado, vez que outra, um abraço, uma palavra ou a vacilante hesitação em pronunciá-la.

Quando Torres fala sobre o poder da contenção, há que se compreender que Eunice era uma mulher que, tanto quanto sentia, continha. O choro e os gritos estão lá, mas escondidos dos filhos, dos amigos e do Estado. Eles só podem ser presenciados por quem se permite emergir no outro, estar tão em sintonia com seus sentimentos que pela mínima demonstração destes, sente-os com potência, com intuição.
A progressão narrativa opta pela inclusão de dois epílogos, com um considerável intervalo temporal. A decisão poderia facilmente romper com o que vinha sendo construído mas a sutileza e o empenho de Salles em contar tão especial história resultam em um cuidado com detalhes e simbologias tão bonito que não apenas justificam a escolha, mas a tornam, de fato, necessária.
O mais forte símbolo é a imagem de Fernanda Montenegro na tela, estrategicamente posicionada bem ao final do longa. Ali se vê Eunice Paiva, “Dora” Teixeira, Fernanda Torres e todos os laços que unem essas famílias, todas as jornadas percorridas em irmandade, todas as conquistas na arte, na política, em dimensão individual ou coletiva. É também nesse momento que Salles reafirma o seu lugar na história do cinema nacional (tal qual o fez Torres ao longo do filme), destacando sua habilidade de provocar sentimentos imensos a partir de uma respeitosa sutileza.

Ainda Estou Aqui é uma peça brilhante na história do cinema no Brasil. É a voz de uma nação dentro de uma nação, um resgate histórico que reverbera no presente em proporções raramente vistas. O resultado se deve a um conjunto de fatores, notavelmente à importância da história, tanto em nível pessoal quanto em nível coletivo, e ao empenho em contá-la com fidelidade, honrando a família que retrata e o momento social em que se passa.
NOTA: 84

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