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cinema | poesia | verdade

Coração de Lutador (The Smashing Machine)

Avaliação: 3.5 de 5.
Benny Safdie. Estados Unidos, 2025.

Há duas formas de encarar a abordagem de The Smashing Machine: (i) como um estudo de personagem, levado a cabo por um Dwayne Johnson surpreendentemente focado; ou (ii) como uma espécie de mocumentário fabular, lastreado no estilo vibrante de Benny Safdie.

Quem escolhe ver o filme sob a ótica do estudo de personagem depara-se com um astro que interfere nas órbitas de quaisquer objetos que ousem derrapar em sua tela. Ali há um ator maduro, de olhar fixo e poderoso, que entrega suas linhas com segurança e toma conta de todo o espaço ao redor. Trata-se de uma gravidade em cena que até então não havia sido mostrada pelo ator em questão, potencializando a performance pelo fator surpresa.

Um pouco mais interessante é determinar-se pelo sonho febril do diretor e embarcar na proposta do mocumentário – aqui mais no sentido estilístico do que propriamente narrativo. Safdie trabalha sua visão manipulando os sentidos do espectador para forjar uma atmosfera tangível e ainda assim espetacular, aproximando e afastando o público de forma deliberada e, às vezes, arbitrária demais.

O seu principal trunfo está no desenho de som, aspecto já reconhecido em trabalhos anteriores, como no emblemático Uncut Gems. Aqui podemos decompor a análise em dois trabalhos principais: (i) a escolha assertiva da trilha sonora, nem tão rígida, nem tão solta, que abraça bem os contornos da trama e, principalmente, (ii) a qualidade psicodélica da mixagem de som – essa sim um trabalho impecável, que consegue levar o espectador a um transe mesmo em meio a uma história tão mundana ou onde há pouco apelo filosófico. O som às vezes é apresentado ao público como um desafio, um convite para mergulhar com mais atenção na narrativa, principalmente no início, onde este engajamento é mais crucial, e assim o logra com criatividade.

O aspecto visual também é um ponto positivo: há bastante espaço para cores, luzes e texturas que vão compondo a identidade visual da obra e caminhando no sentido estético/narrativo proposto pelo realizador. Contrariando o óbvio, é bom ver que a imagética do protagonista em si, sua complexidade muscular e deformações estéticas não são elementos particularmente importantes nessa construção – ao contrário, o diretor sempre mantém a predileção pelo rumo da coloração para imprimir sua visão.

Nesse sentido, não parece haver uma clara relação entre a fotografia e a época dos acontecimentos, nem uma busca por algum tipo de resgate do que seria o visual entre o fim dos 90 e o começo dos anos 2000. Porém, há uma clara tentativa de determinar uma perspectiva sobre a época a partir da direção de fotografia. Isto é, sem se importar exatamente em evocar uma associação pré-concebida do público, a obra preocupa-se em dizer por si mesma como se parece esta época, num exercício interessante de criatividade.

Para completar seu pacote potente, o diretor ainda tenta fazer uso de um ou outro elemento simbólico, notavelmente uma peça de artesanato japonês que desempenha função menos que importante na narrativa, porém aqui já totalmente sem necessidade. Toda a carga construída já ocupa com robustez a mente do espectador, não havendo espaço ou pertinência para amenidades ou sutilezas fora de contexto.

Com todas estas camadas postas, o filme abre com um primeiro ato excelente – longo, envolvente, dinâmico. Ficamos de frente ao ápice do refinamento técnico do diretor em perfeito casamento com a robustez do protagonista. Aquele universo vai se montando de forma exuberante e provocativa só para desembocar em um segundo ato, no mínimo, problemático.

Como é neste momento que deveria encontrar-se o coração da obra, havendo virtualmente nada, fica difícil até de entender o motivo para a própria existência do filme. O roteiro é praticamente inoperante e baseia-se em duas premissas que se repetem a todo momento: (i) os problemas amorosos entre Mark e Dawn, que sempre se originam a partir de diálogos embaralhados e parecem nunca contar com um motivo real, ou pelo menos propriamente desenvolvido, e (ii) os problemas do protagonista com o abuso de opioides, tema extremamente aborrecido, que pouco acrescenta no desenvolvimento emocional da própria personagem – esse sim já mais interessante.

Este ponto intermediário prejudica bastante o ritmo da obra, que vinha numa crescente, de um primeiro ato estelar. Aqui há até uma certa letargia, uma repetição, um transe que quebra o fluxo sentimental que vinha sendo construído e demora para passar.

Uma montagem habilidosa, porém, trata de armar o cerco para um terceiro ato de remissão. Ainda que por vezes deixe de lado as questões mal resolvidas do período anterior, há um louvável esforço de seguir adiante, e que gera resultado. A narrativa até encontra uma saída anticlimática antecipada para evitar um final mais previsível, mantendo a chama do espetáculo viva para os momentos finais com bastante inteligência e manejo narrativo.

O saldo final é bastante surpreendente, principalmente quando se trata de um drama esportivo envolvendo grandes nomes de Hollywood. A latência artística do diretor é muito pulsante durante toda a obra, sendo praticamente o principal sustentáculo do sucesso do filme, contornando as graves dificuldades do roteiro e abrindo a cena para uma performance memorável.

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