Slava Leontyev, Brendan Bellomo. Ucrânia, 2024.
Sob ataque contínuo das forças armadas russas, o casal Slava e Anya se recusa a abandonar Kharkiv e, ao lado de seu amigo Andrey, iniciam uma empreitada dupla de resistência: uma pela arte, outra pelas armas. Slava organiza um treinamento de guerra para um grupo de civis dispostos a enfrentar o rolo compressor russo, enquanto Anya se concentra na criação de delicadas estatuetas de porcelana.

São complexos os desafios que a análise deste tipo de trabalho exige. Por um lado, há um forte apelo humanitário que acarreta um sentimento de empatia em face das diversas histórias de perdas, fugas, medo e solidão inerentes ao contexto de guerra. De outro modo, a iminente avaliação da obra como instrumento de linguagem, comunicação e, principalmente, como cinema, deixa a desejar.
Há um problema narrativo que perpassa toda a extensão do longa: os núcleos não se juntam naturalmente. É como tentar reconstituir uma peça de porcelana quebrada a partir dos cacos de duas peças distintas. Ocorre que a montagem tampouco tem a habilidade necessária para juntar esses cacos de maneira coerente e o resultado é, na maior parte das vezes, uma bagunça. O que há de mais inoportuno sob tal aspecto são as incansáveis tentativas de forçar a narrativa da arte para dentro do contexto da resistência armada. Sempre que essa dicotomia é explorada no documentário, há uma evidente dissonância que dissipa o poder que eventualmente é criado em algumas outras sequências e enfraquece a mensagem.
Fazendo as devidas reservas e reconhecendo o estado crítico retratado, não há como deixar de comentar sobre o maniqueísmo bobo das críticas direcionadas à ação russa e a superficialidade dos argumentos que fundamentam a base teórica do trabalho. Veja que existem centenas de maneiras de atacar o regime de Putin e o avanço de suas tropas sobre o então território ucraniano, mas a escolha que acaba se consolidando, além de fraca, depõe contra a credibilidade do próprio grupo armado de resistência.
Em um momento: esquete de “Os Trapalhões”. Em outro: a seriedade e a solidão da guerra. Essa dissonância impede a entrega de um produto final coeso e com a unicidade argumentativa tão necessária para promover a denúncia pretendida, aliena o espectador e torna a progressão dos fatos retratados difícil de se apreciar, desinteressantes.
Contudo, sejamos justos, há um ou outro momento, principalmente na parte final do filme, que prendem a atenção. São momentos do filme que assumem o perfil denunciativo do documentário de maneira explícita, mais quando retrata os horrores da guerra e menos (BEM MENOS) quando o enfoque recai sobre as ações bélicas do grupo armado.
A unilateralidade da visão apresentada nunca foi um problema, haja vista que a função do documentário, enquanto expressão artística, é, justamente, transformar em linguagem um ponto de vista. Neste sentido, o trabalho é honesto, mantendo-se verdadeiro aos sentimentos dos realizadores e sem apelar para a falácia da imparcialidade, dos “dois lados da história”.
“Guerra de Porcelana” é um documentário que, apesar de sua inegável importância e atualidade e de momentos pontuais de impacto, falha em consolidar uma narrativa coesa e envolvente. A dualidade entre a resistência armada e a expressão artística, que poderia ser o cerne de uma discussão profunda e produtiva, acaba se perdendo em uma montagem confusa e em tentativas forçadas de unir dois universos que, no filme, não dialogam de maneira orgânica.
NOTA: 40/100
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