Julien Faraut. França, 2021.
O documentário faz uma viagem para apresentar as ex-jogadoras da seleção de vôlei feminino japonesa. Agora já na casa dos 70 anos de idade, elas eram conhecidas como Bruxas do Oriente, por causa de seus poderes aparentemente sobrenaturais nas quadras. Da formação do time no final da década de 1950 como uma equipe de trabalhadoras de uma fábrica têxtil até o triunfo nos Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, as memórias das ex-atletas se transformam em uma narrativa em que fatos e imaginação caminham juntos.

Extremamente criativo, “As Bruxas do Oriente” apresenta uma ode às mulheres que inspiraram o Japão e surpreenderam o mundo nos anos 60. O que mais merece destaque é o avanço da narrativa para além da zona de conforto dos documentários tradicionais, utilizando-se de diversos recursos do cinema para ilustrar a jornada das campeãs.
Com uma montagem deliciosa, inventiva e fluída, a progressão conta com a narração das próprias bruxas, a partir de depoimentos previamente gravados e encaixados, brilhantemente, no decorrer da obra. Ao optar por utilizar as próprias palavras das jogadoras, o documentarista encontra um toque de pessoalidade que engrandece o resultado final, aproximando o espectador do objeto documentado, através das piadas internas, do entrosamento entre as mulheres, do tom de voz que oscila conforme a natureza de cada lembrança.
A qualidade do arquivo é excepcional, recuperando momentos-chave na gloriosa história das campeãs. Também é impressionante o cuidado e o trabalho com as imagens, transformadas de forma a integrar a roupagem “moderna” do filme, ainda que bastante antigas. E funciona muito bem. Em alguns momentos a imersão consegue ser mais efetiva que grande parte das ficções, convidando o espectador a viver o transe dos momentos.
A trilha sonora industrial remete à força de renovação do Japão pós-segunda guerra, momento este, retratado como resultado do alto poder de reconstrução e da relação visceral do povo nipônico com o trabalho. Esse sentimento é apontado como a força motora responsável pela resiliência das atletas perante os intensos treinamentos, a pressão social extrema e o esgotamento físico e mental.
A despeito das questões polêmicas que permeiam a história, notavelmente os métodos enérgicos (para dizer o mínimo) do treinador Daimatsu, falta uma posição mais definitiva. A narrativa se limita a uma postura jornalística, com relativa imparcialidade para tratar da temática, cedendo espaços para as exposições de diferentes teses, sem extrair uma síntese destas.
O maior mérito do cineasta é criar um filme interessante e de qualidade para qualquer espectador, independentemente de sua afinidade com o objeto documentado. Seu manejo dos recursos cinematográficos é impressionantemente promissor, faltando apenas uma gota de coragem para temperar o seu trabalho.
RATING: 80/100
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