Ainhoa Rodríguez. Espanha, 2021.
“Haverá um clarão na aldeia, muito forte, poderoso, e tudo irá mudar…”. Isa tem um gravador para registrar mensagens para si mesma para quando ela sumir ou perder a memória. Cita tem a sensação de estar presa a um casamento em uma casa repleta de imagens de santos e virgens. María volta ao povoado onde nasceu para lidar com sua solidão. Três mulheres de uma pequena cidade rural, suspensa no tempo e castigada pelo despovoamento. Nesse lugar, elas vivem entre a apatia do cotidiano, em que nada de extraordinário acontece, e um desejo profundo de vivências libertadoras.

As mulheres do pueblo começam a entender-se como tais: as privações que sua condição feminina lhes impôs na comunidade, as pequenas e grandes violências que paralisaram-nas, o mundo masculino que as cerca. Esse despertar da primavera coletiva começa a induzir episódios de transe entre as damas do vilarejo, uma histeria mulheril clamando por (pasme!) liberdade, que loucura!
As cenas que ilustram, de forma mais direta, o forte clarão que se iluminou nas mentes das donzelas são especialmente emblemáticas. Há uma mistura de magia e elegância, fantasia e tradição, feitiço e sedução, evocando uma estética pautada nos simbolismos, quase todos remetendo à feminilidade e à revolução, ou a bruxaria, como essa mescla sempre foi conhecida.
Com todos os méritos, visuais, de roteiro, de significado, é de se considerar a falta de unidade entre as partes da narrativa. Alguns momentos enfrentam complicações para integrar o todo e nem todas as histórias são interessantes, nem todas as personagens parecem fazer sentido no meio de toda loucura, e são muitas. Essas barreiras maculam a imersão, aborrecem o espetáculo.
A presença da religião, por mais significativa e simbólica que seja, em alguns momentos parece travar a progressão narrativa, sem colaborar (como a cineasta esperava) com a imagética, importantíssima para essa obra, em particular. Mas deve-se ressaltar a importância da insígnia da virgem, a devoção à pureza feminina, a idealização que anula a autodeterminação e os sentimos nas señoras do pueblo.
A condução da diretora na criação do extraordinário, da ruptura na vida das mulheres da vila é pura inspiração, uma ebulição primorosa e visceral de revolta e paixão. Mas fora esses especiais momentos, o que resta é muito, mas muito aquém. O retrato da apatia cotidiana não precisa ser um poço de monotonia, a magia do cinema é justamente transformar o simples no fantástico e esse recurso está em falta.
RATING: 41/100
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