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cinema | poesia | verdade

Lidando Com A Morte (Dealing With Death)

Paul Sin Nam Rigter. Países Baixos 2021.

O documentário segue Anita, uma empresa da indústria da morte, que sai em uma jornada em busca de conhecimento multicultural para viabilizar serviços para diferentes comunidades no novo centro funerário a ser construído pela empresa a qual representa.

Investigar as diferenças culturais de povos que compartilham um centro cosmopolita, como Amsterdam, a partir da ótica de uma empresa funerária que busca conhecer os rituais de sepultamento de seus possíveis clientes é, sem dúvida, uma premissa bastante interessante. A execução documental, no entanto, enfrenta algumas dificuldades que comprometem o resultado final.

A obra inicia com a proposta de entender como visão religiosa (ou espiritual) sobre a morte espelha a visão de mundo de um determinado povo. Entretanto, ao se deparar com tribulações no aprofundamento da pesquisa, resultando em um trabalho final um tanto superficial, com um sentimento de incompletude, o cineasta redefine os rumos e passa para uma espécie de comparativo entre um funeral tipicamente ganense e outro tradicionalmente holandês. É uma delimitação inteligente do recorte, que permite uma fluidez maior ao longa.

Outro acerto importante a ser mencionado é quando a narrativa (ou o destino?) traz a empresária (que aqui funciona como protagonista) ao centro da temática, avançando em sua vida pessoal e atrelando-a diretamente ao tópico em questão. Tal decisão humaniza sua persona, que passa de uma mera agente do capitalismo, negociando em cima das tragédias alheias para um ser afetivo, sujeito às dores que permeiam a dita indústria da morte.

Dentre os conteúdos negligenciados que mereciam maior estudo, certamente, o maior de todos é o processo pelo qual as comunidades multiculturais conquistam seus espaços, abrindo caminho pela Amsterdam homogênea e emergindo, lentamente, para a vida mainstream da metrópole. A narrativa chega a tocar em tal ponto mas peca ao não desenvolvê-lo, limitando-se a exaltar os visuais exuberantes, as danças, os cânticos e os rituais da comunidade ganense, principalmente. Tal abordagem, deve-se dizer, é aplicada com respeito e empatia tanto pela câmara, quanto pela protagonista carismática.

Também, vale ressaltar a dificuldade da montagem em construir um senso de cronologia que contribua para a inteligibilidade da narrativa. Por vezes, a edição erra ao apostar em uma progressão brusca ou sem uma transição, propriamente dita, confundindo o espectador no que tange à percepção temporal.

Para diversas culturas, o velório é um último chamado de comunhão, um ato de amor e respeito ao falecido. A construção deste evento reúne variáveis reveladoras sobre a estrutura e as tradições de uma sociedade. Enquanto para uns, tal demonstração demanda a performance da tristeza e a expressão efusiva do sentimento de perda, para outros, o silêncio é o melhor sinal para o estado de luto.

RATING: 41/100

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