1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Armugan

Jo Sol. Espanha, 2021.

Armugan (Iñigo Martínez), apoiado em seu fiel servente Anchel (Gonzalo Cunill), vaga pelos vales e montanhas de Aragão levando alívio aos atormentados.

Com poucas pistas sobre o ofício ritualístico desempenhado por Armugan, o longa se volta à relação entre os personagens e destes com a morte e a vida, preferindo focar no aspecto do drama existencial.

Preliminarmente, é preciso ressaltar a qualidade dos trabalhos de som e imagem que juntos, em uma sintonia deslumbrante, estabelecem uma atmosfera de transcendência, emulando um estado de espírito limítrofe entre a vida e a morte. A escolha pela fotografia em preto e branco embeleza o frio cortante daquele ambiente e valoriza as formas naturais das rochas que compõem as montanhas. A sonoplastia, por sua vez, é um show à parte, desempenhando importante papel narrativo e, com grande atenção aos detalhes, intensifica a experiência de imersão através do som.

Outro ponto fundamental a ser tratado é a relação entre as personagens principais: Armugan e Anchel. A devoção silenciosa do último para com o primeiro, auxiliando-o com carinho e trocando olhares de ternura espelha a troca que a personagem-título estabelece com os seus pacientes durante o seu ritual mortal. Não por acaso vem a sugestão (imageticamente construída pelo cineasta) de que Anchel estará para Armugan como este está aos seus moribundos.

Talvez o recorte mais importante da temática estabelecida seja o próprio momento da passagem e a dose de misticismo que ronda aquele instante. Em certa sequência, o protagonista narra a clareza obtida pela confusão dos sentidos ao passo em que a morte se aproxima. Tamanha iluminação floresce um sentimento de apego a vida: ora, se é possível viver cotidianamente com a plenitude desfrutada naquele momento, por que morrer? Mas não é. E aí entra o Armugan, provocando um experimento sensorial que convence o enfermo a desprender-se daquela dimensão e seguir.

Quando o protagonista é confrontado por um dilema de ordem moral (ou espiritual), ele é forçado a rever e (para fins narrativos) expressar os seus conceitos acerca de seu ofício, seja para confirmá-los ou para modificá-los. Neste momento de incertezas, o cineasta, acertadamente, diga-se de passagem, abusa das simbologias para reforçar sua tese.

Como o sol, não é possível encarar a morte sem piscar e, por isso, abraçá-la é um ato de coragem, desprendimento e amor a si mesmo e ao próximo, dada a ingratidão da vida. Assim, o cineasta propõe sua perspectiva acerca do perecimento humano: a morte é a cura da vida e não seu antônimo natural, é o alívio final, a carta de alforria.

RATING: 60/100

inscreva-se

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre 1001 Filmes

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading