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cinema | poesia | verdade

A Taça Partida (La Taza Rota)

Esteban Cabezas. Chile, 2021.

Rodrigo, que uma vez teve, dentre suas POSSES, uma casa, uma esposa e um filho, hoje se vê privado daquilo que entende ser dele por direito. Assim, vai em busca de reconquistar sua antiga vida, independentemente do poder de autodeterminação de sua ex-companheira, Carla.

Mais do que um drama familiar típico, A Taça Partida é um retrato da masculinidade confrontada por uma ruptura do pátrio poder. O conteúdo mais significativo da obra é extraído da maneira pela qual Rodrigo (Juan Pablo Miranda), representando a ofensiva do macho dominador, habilmente desvia das barreiras que estabelecem a ordem e o bem estar de Carla (Maria Jesús González).

Ele busca reestabelecer a posse da casa, do filho e (principalmente) da mulher, adentrando e instalando-se no ambiente como erva-daninha. Em uma espécie de ritual simbólico, ele macula elementos presentes naquele lar que possam contestar sua tomada de poder: que remetam ao outro homem ou que indiquem a progressão de Carla, de forma independente.

Como uma cobra, ele imobiliza sua vítima, envenenando sua razão com argumentos distorcidos e falas contundentes, num modus operandi fielmente latino-americano, incorporando o mítico homem cordial e tergiversando a razoabilidade, sempre que esta opera em seu desfavor. E nesta construção, o cineasta consegue demonstrar uma conjuntura verossímil, sem exageros: pelo contrário, respeitado a sutileza das ações do sujeito.

A dimensão patriarcal do pátrio poder é mais do que um dispositivo positivado nas legislações latino-americanas e posteriormente superado pelas doutrinas mais modernas e progressistas. Ele é vivo e perpetua-se, quase que intacto, pelas gerações e demais segmentações sociais. Não por acaso o exemplo de Cabezas é uma família jovem, de classe média. É a opção do diretor para demonstrar a cotidianidade desta estrutura, esta é regra, bem longe de um caráter de exceção.

O final, como acontece no mundo real (aí mais acerto narrativo) é inconclusivo. Não há qualquer consequência para as atitudes de Rodrigo e, para Carla, resta a imobilidade a qual foi, mais uma vez, condicionada.

Dentro de casa, ou fora dela, quase sempre submetida à autoridade masculina, a mulher vive um perpétuo estado de sítio, seja na América Latina, na África ou na Europa. Os escassos institutos que as protegem, todos criados por homens, diga-se de passagem, não resistem aos “impulsos” birrentos da masculinidade. Não há direitos ou garantias, apenas labuta, paciência e recomeço.

RATING: 50/100

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