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cinema | poesia | verdade

Higiene Social (Hygiène Sociale)

Denis Côté, Canadá. 2021.

Antonin é um delinquente romântico que enfrenta os seguimentos de uma vida social falida, representados por mulheres coadjuvantes à vida do protagonista. Ele traduz as cobranças e frustrações em uma visão hedonista de mundo, suavizando sua imaturidade e seu desarranjo social.

Higiene Social propõe uma experiência anticinematográfica que pode ser, justamente, sobre cinema. Nesse diapasão, o diretor trabalha em cima da contradição entre o conteúdo do roteiro (narrado à moldes teatrais pelas personagens) e as características intrínsecas da produção cinematográfica, sejam os cenários, os figurinos, a fotografia. De forma mais direta, em uma primeira análise, temos que a forma discorda do conteúdo.

Avançando à uma camada mais profunda, tem-se que, em verdade, aquela divergência fundamental é plenamente compatível com a inaptidão do protagonista em adequar-se à vida social. E tal representação também corrobora com a definição de cinema oferecida pelo próprio autor: o cinema é uma ponte entre a realidade e o que poderia ser.

Ao definir-se como romântico e idealizador, o protagonista justifica os cenários bucólicos, os figurinos provincianos e as vozes impostadas. Ainda que provoquem sensações que remetam ao anacronismo e os incômodos advindos de tantas incongruências, tais elementos são manifestações de uma determinada visão artística que tenta traduzir a realidade daquele homem.

No entanto, a possibilidade de extração de um conceito redondo não pode eliminar as consequências da precariedade da produção que, por mais que faça sentido naquele contexto, afeta negativamente a experiência do espectador. A opção pela imagem estática , os diálogos intermináveis e a interação obstrutiva das personagens, limitadas pelas distâncias entre si, esfriam a obra, alongam sua (aparente) curta duração.

Ali, cada movimento de câmara é sopro de alívio, tamanha a paralisia. É impossível encontrar um desfrute espontâneo, que não demande uma dose absurda de internalidade, de processamento. As provocações são bastante sutis, exigindo do espectador uma boa dose de imaginação para absorver um conteúdo que seja. Mas o que funciona deve ser reconhecido.

Nesta obra, em particular, a proeza do cineasta é encontrar um conceito que possa ser abrigado em tão simplória produção. E com toda a limitação, que lhe é (até) necessária, consegue dizer algo. Ora, se isso não é cinema então o que é?

RATING: 33/100

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