
Paúl Venegas. Equador, Colômbia, Uruguai, 2020.
Na busca de seus respetivos “China Dreams”, Lei (Fu Jing) e Wong (Liden Zhu) embarcam clandestinamente em um navio rumo à cidade de Guayaquil, Equador. Presos a um jogo cruel de interesses, os protagonistas vêm o desejo de prosperidade ceder lugar à cotidiana desilusão.
Imigrar é atirar-se ao vazio, à incerteza do futuro. Aqui, empurrados pelos coiotes, numa versão repaginada de navio negreiro, à ilusão, à promessa do China Dream, um grupo de chineses chega à “Nova Chinatown”. A protagonista, em particular, foge de um sentimento obscuro e profundamente masculino: o desejo obsessivo pela dominação; para entender, finalmente, que esta mesma dominação fala todas as línguas, faz-se presente de Beijing à Guayaquil, de Nova Iorque à Montevideo.
A câmera, paciente mas revestida de uma curiosidade documental, procura uma unidade em todas aquelas perspectivas para embasar a tese do longa. Há uma fluidez agradável, na maior parte do processo, mas que emperra, vez ou outra, espelhando o desgaste natural vivido pelas personagens. Há momentos em que os esforços técnicos e criativos brilham em um funcionamento harmônico e eficaz, mas, deve-se dizer, há aqueles nos quais a regência falha e os defeitos de condução saltam aos olhos. Se em um momento a naturalidade das performances não profissionais engrandece a obra; em outros, a inexperiência resulta num desconforto mecânico, inverossímil. Tal inconsistência prejudica a imersão.
Igualitos na estigma, nas barreiras culturais, na violência sistêmica que os desumaniza e os coloca à mercê das ambições espúrias que sempre assombraram à vida da classe trabalhadora, eles aprendem a suprimir a nostalgia e o desejo. A desilusão vai avançando pelas trincheiras dramáticas da narrativa, despertando um senso de revolta, um desejo de ruptura, cuja concretização não parece crível nos termos até então desenhados mas que, para o bem ou para o mal, ocorre.
O grande diferencial – e talvez maior mérito de “Vazio” está em seu ineditismo temático. É sabida a intensidade da imigração chinesa em grandes metrópoles latino-americanas, mas se há interesse em contar estas histórias, não há caminhos que as levem até as salas de cinema. É notável a íntima relação do cineasta com as questões retratadas, o que imprime uma qualidade sentimental peculiar a este tipo de cinema, feito de coração e com verdade.
RATING: 63/100
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