
Mariusz Wilczyński. Polônia, 2020.
Para sobreviver aos traumas do luto, o protagonista abriga-se em um refúgio mental, no qual toda a saudade é suprimida por memórias vívidas. O espaço é tomado por diversos referenciais que habitam no subconsciente deste homem, invocando uma intensa epifania.
Um rascunho delirante e surreal de semividas decadentes entrelaçando-se em uma vertigem intoxicante, chamuscada de cigarro. É um lamento sobre a banalidade da velhice misturado com a lembrança nostálgica da juventude: tudo no mesmo instante, sem saber em que ponto a realidade dá lugar ao transe provocado pela fumaça densa das indústrias e o barulho estridente das ferrovias.
O estilo mórbido da animação, aliado à condução esquizofrênica do diretor, produz um efeito hipnotizante de profunda agonia. Cada passo que a narrativa dá é acompanhado de um enxame de pensamentos estranhos e teorias pessimistas que revelam uma inspiração inicial para o delírio da vez: o traço de realidade que se dissociou até aquele ponto.
O pesadelo com moscas e rock moribundo revela-se uma reflexão sobre transmutação, sobre a confusão entre o início e o fim, o futuro e o passado. As personagens são bestializadas adicionando mais um elemento de choque e representando a característica cíclica da própria vida, do corpo, da terra. A substância filosófica é, no entanto, extremamente esparsa e muitas vezes inacessível.
Um olhar cansado para a natureza humana, o espírito humano: aquele que faz o bem desejando o mal, o pecado, o desejo inabalável de destruição. Melancólico até o fundo, incauto, volta e volta e volta sempre para a mesma conclusão: a confusão existencial ao encarar a morte, o filme que se passa em um único segundo, com toda a vida comprimida.
RATING: 60/100
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