1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Lua Vermelha (Lúa Vermella)

Lois Patiño. Espanha, 2020.

Desde que uma onda derrubou a embarcação de Rubio, colocando um ponto final na vida do pescador, a vila parece viver um prolongado e vagaroso luto. Imóveis, mas ainda conscientes, eles recebem a visita de três bruxas que descem das montanhas para auxiliar nas buscas pelo corpo.

A pequena vila serve de purgatório para o espírito da comunidade, de Rubio, de Marguerite Duras. As bruxas – médiuns – exorcizam as almas penadas presas a uma vida passada, ao sangue, às ideias fixas, às preces e aos mantras. Ali, no ventre da besta, naquele umbral úmido e mal iluminado – o que havia de vida, a represa barrou – os espíritos mastigam hipóteses, condenam o mar predador, a lua, criam monstros que expliquem sua letargia, sua desgraça.

É preciso se despedir dos mortos, então eles aguardam, no mesmo lugar, no mesmo instante por cem, trezentos, mil anos. A música entoa um grito de dor, de todos aqueles inconformados, que não entendem sua condição, que se agarram à materialidade quando, em verdade, não há nada mais a que se agarrar. A câmera, como os defuntos, paralisada, contempla os tantos vazios que insistem em existir.

Rubio está salvo, o mar o salvou e aquela coletividade, uma vez conformada, entregue à morte, abandona os vínculos com a matéria e pode seguir para uma nova etapa da existência. A maresia, sedativa e ameaçadora dá lugar a uma nova dimensão da realidade, quente, vermelha, promissora.

Uma alegoria bela e profundamente poética: a narrativa se desenrola em uma hipnose, um transe vermelho, enferrujado. Como as rochas, as pessoas são esfareladas pelo mar, tornam-se areia, inertes. Os espelhos são os olhos da besta, que por sua vez, é um reflexo do presente, do fantasma em cada um.

RATING: 67/100

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