1001 Filmes

cinema | poesia | verdade

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7)

Aaron Sorkin. Estados Unidos, 2020.

Um protesto pacífico programado para convenção do partido Democrata de 1968 acaba deflagrando um banho de sangue sem precedentes. Oito homens, em posições de liderança, são escolhidos pela Procuradoria do governo Nixon e processados, politicamente, pelos atos coletivos praticados naquele fatídico dia.

Cínico mas sentimental, “Os 7 de Chicago” embala em um thriller apaixonado, com boas doses de sarcasmo e embebido em uma crítica política que perpassa toda a estrutura institucional dos Estados Unidos. De um lado, o retrato de uma democracia estéril, de instituições míopes e altamente aparelhadas e, de outro lado, a representação de uma esquerda que pena para amarrar as pontas de sua pluralidade, não apenas ideológica, como pessoal.

Apesar de turbinado dramaticamente para as telas, as caricaturas que a narrativa constrói não se distanciam muito dos fatos. A figura do juiz é especialmente emblemática, representando o autoritarismo desmedido e injustificável do governo Nixon através da supressão do devido processo legal e da neutralização da primeira emenda. O julgamento, essencialmente político, torna-se uma farsa absoluta para legitimar a perseguição a opositores.

Com uma edição estelar e performances presentes, a direção acerta a dose de comédia para reviver o momento político conforme o aspecto cultural dos movimentos, sem macular, no entanto, as motivações e o espírito das organizações e personalidades revolucionárias retratadas. A qualidade do roteiro cambaleia ligeiramente nos instantes finais, recorrendo ao sentimentalismo exagerado e alguns atalhos narrativos que, por si, não são suficientes para manchar a construção competente e sólida do longa.

Reforçar as hierarquias é aumentar os hiatos da relação, já absolutamente vertical, entre o povo e o líder. O papel da oposição é fazer valer o processo democrático, isto é, o exercício diário da cidadania. Mas a luta por este espaço ocorre todos os dias, até hoje, em todos os lugares. Seja em 24 de agosto de 1968 ou em 3 de novembro de 2020.

RATING: 84/100

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