Abderrahmane Sissako. Mauritânia, 2014.

A cidade de Timbuktu cai sob o domínio de um grupo armado jihadista que instala no povoado um sangrento regime totalitário com o pretexto de fazer valer os princípios do Alcorão. Nesta conjuntura, os moradores da pequena vila se esforçam para viver suas vidas apesar do terror instaurando pela ocupação.
Timbuktu retrata, além do medo, a morbidez, a infelicidade de um povo dominado por uma milícia fundamentalista. A morte a desesperança pairam sob o resseco ambiente, onde as armas são soberanas, a lei é a própria morte e o estupro, a chibata é a solução e o sequestro é a Constituição.
E o povo vive apesar da mordaça, reduzidos a seres desprovidos de vontade própria, vivem uma vida sem vida, sem diálogo, sem amor, sem bola, de luva, de meia e calado, ou melhor, silenciado. O império da tirania é um fim em si mesmo, apesar dos esforços em se justificar em uma palavra sagrada, ele a contradiz a todo momento. Não há genuína luta santa, mas pretexto para o cruel arbítrio, sem razão, sem finalidade.
Há tanto o que se pensar sobre tal situação que o cineasta se limita a filmar o cotidiano daquele povoado morto, tomado pelos fundamentalistas: são cenas simples, sem diálogo, mas desvaradoras e belas, que dizem tanto ao não dizer. O roteiro anda devagar, sem grandes gatilhos, pois o crime, a barbárie já está estabelecida em primeiro lugar, só precisa ser mostrada como ela é: dura, cruel, estúpida e sagrada.
Timbuktu é um triste testemunho sobre um povo que, ainda hoje, vive sob a égide de um espectro maligno que, por diversas vezes na história da humanidade, materializou-se. Que bondade pode haver em privar uma criança de seus pais?
RATING: 78/100
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