Miguel Gomes. Portugal, 2012.

Na Lisboa contemporânea, a bondosa Pilar (Tereza Madruga) preocupa-se com a condição de saúde de sua vizinha, Aurora (Laura Soveral) que parece sofrer com as confusões da velhice. Ao realizar o último desejo da senhora, Pilar acaba descobrindo o vívido passado que, secretamente, fez-se presente em cada momento da vida de Aurora.
Miguel Gomes resgata o poético e melancólico estilo narrativo de Marguerite Duras em ‘India Song’ para produzir uma obra tecnicamente deslumbrante. A bela fotografia colabora para a construção da triste atmosfera bucólica e a sublime edição de som emudece as lembranças e amplifica a solidão do narrador.
É um doloroso choro de saudade e desejo pelo que ficou perdido, o Paraíso Perdido. A memória viva da própria vida, da aventura selvagem, a permissão para viver a sua natureza em plenitude, a África. Agora é uma lembrança muito borrada que se arrasta, quase invisível, por uma pálida e morta Lisboa. Mas ainda está lá, nas profundezas da Dona Aurora, que só a loucura pode acessar.
Profundamente romântico, Tabu abraça o silêncio como a penitência de Aurora, o segredo. Na memória, um pecado tão mortal que deve ser silenciado para caber na moral católica, mais apostólica que romana. Na loucura tudo se confunde, passado e presente, a mente cansada já não pode conter os gritos da nostalgia: é só aquilo que a mantem viva, e a criança inocente que leva no ventre.
Tabu canta uma poesia triste e desbotada sobre um passado tão brilhante e tão vivo que já não caberia mais na semi-vida que é a velhice. É um deleite para os olhos e ouvidos mas um amargor para a alma. Viver a felicidade custa caro.
RATING: 93/100
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