Nas ruas cinzentas de Londres, Mike — jovem sem-abrigo preso no ciclo da adicção — recebe uma segunda chance após um erro que o leva ao cárcere. Liberto, ele tenta reconstruir sua vida em hostels e empregos temporários enquanto o passado persiste como sombra.

Em Urchin, estreia de Harris Dickinson na direção de um longa-metragem, somos apresentados a Mike (Frank Dillane), um jovem em situação de rua que convive com a adicção. A breve demonstração de seu cotidiano revela um homem que sobrevive da mendicância e de pequenas infrações para sustentar seus vícios.
O ponto de virada ocorre quando ele agride e rouba um rapaz que tentava ajudá-lo. A partir daí, é capturado pela polícia e passa alguns meses na cadeia, privado de drogas. O corpo do filme se concentra em sua jornada após o cárcere e na luta para permanecer longe da dependência.
Trata-se, em essência, de um estudo de personagem — um retrato cru e íntimo de alguém à beira da ruína, tentando, ainda que sem garantias ou um propósito bem definido, reencontrar a si mesmo. Mike é excêntrico, de personalidade pulsante e afetada, o que oferece vasto material para o trabalho de ator.
Nesse sentido, Frank Dillane dá vida a um Mike gloriosamente rastejante, sujo e oleoso. Seu desempenho é um dos melhores do ano no cinema independente: uma performance tocante e poderosa, fruto de um entendimento profundo e, sobretudo, afetuoso da personagem.

A direção, embora limitada pelas restrições de uma produção de baixo orçamento, é notavelmente inteligente no uso de seus recursos. Uma cena em particular — ambientada em um karaokê — tem o poder de reformular toda a atmosfera do filme e emprestar ao espectador um raro respiro de felicidade, como fazem os grandes cineastas.
Toda essa felicidade, no entanto, é passageira. Mike sabe disso, e o espectador também. É dessa previsibilidade que nasce o principal ponto fraco da obra: o roteiro não é exatamente original ou surpreendente, pois busca extrair sentido e esperança de uma trama já conhecida e demasiadamente mundana.
Mesmo o desfecho, que sugere a morte do protagonista, se entrega ao óbvio — o que seria um problema maior, não fosse o olhar sensível de Dickinson, capaz de transformar a cena em uma passagem visualmente poética, preservando a singularidade da obra.
É interessante, porém, a escolha de retratar a marginalidade e a delinquência a partir do ponto de vista de quem as vivencia. É comum que narrativas abordem esses temas sob perspectivas externas, frequentemente implicando a não confiabilidade desse alguém enquanto narrador. Dickinson, contudo, prefere humanizar seu protagonista e aproximá-lo do público, permitindo que a empatia surja não pela piedade, mas pelo reconhecimento de uma humanidade partilhada.
Tecnicamente, trata-se de um trabalho bastante consistente dentro de seu contexto. A fotografia, realista e fria, dialoga bem com a atmosfera da narrativa principal, reforçando o sentimento de solidão e alienação do protagonista. A edição é fluida o suficiente para que o filme não pareça nem longo nem curto, mas de duração precisa para o que se propõe.
Finalmente, podemos afirmar com segurança que Harris Dickinson é um artista multifacetado. Seus dotes como diretor são tão ou mais impressionantes que seu talento como ator. Urchin é uma experiência imersiva na vida de um viciado — um filme que, ainda que simples em estrutura, cumpre com rigor e sensibilidade o propósito a que se propõe.

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