Um grupo revolucionário, parcialmente dizimado pelas forças repressivas do Estado, é convocado a mais uma vez assumir posição de batalha. As feridas do passado se entrelaçam às novas tensões do presente, desencadeando uma cadeia inexorável de acontecimentos.

O mais peculiar — e belo — na forma como Paul Thomas Anderson conta grandes histórias é que ele jamais o faz em detrimento das menores. Ao contrário: ele constrói o épico a partir da soma das jornadas íntimas que o compõem.
Uma Batalha Após a Outra é um grande filme não apenas pelo enredo pujante ou pela execução primorosa de suas sequências desafiadoras, mas, sobretudo, por reservar o centro de sua narrativa à experiência humana. Fala-se aqui de nostalgia, de esperança, de persistência — de manter-se fiel a um ponto de vista mesmo quando tudo ao redor desmorona.
Não se trata de uma exploração moral, ainda que em alguns momentos a narrativa nos convide a interpretar as motivações das personagens sob um olhar de julgamento. O cerne não está no que leva alguém a ser ou a fazer algo, mas no estado de consciência que impele o ser humano a se comprometer com uma causa.

A construção segue um modelo narrativo claramente dividido em três atos, cada um com personalidade bem marcada. O primeiro ato é denso e acelerado, conduzido pela presença lancinante de Perfídia em cena — já delineando a função narrativa de sua persona, que se tornará crucial em determinados momentos do desenvolvimento da história.
O segundo ato é excelente — o mais vigoroso e enredado da obra. Aqui, a disposição dos acontecimentos é estreitamente concatenada: uma batalha após a outra, quase como uma coreografia de eventos. É verdade que um ou outro episódio parece ter entrado no corte mais para dar corpo ao conjunto do que por uma necessidade narrativa propriamente dita, mas nada que comprometa de modo significativo a força da sequência.
Por fim, o terceiro ato assume um tom mais introspectivo, quase hipnótico. As relações de sentido tornam-se ligeiramente difusas, e nem tudo parece tão bem arranjado — mas há uma lógica nessa opção. Ela permite dissipar a tensão acumulada e assentar, com alguma serenidade, as informações que até então se embaralhavam.

Em termos de estilo, a condução do realizador é irrepreensível. A música assume o interessante encargo de demarcar a posição do diretor diante do que se vê em cena. Nem sempre a escolha sonora faz sentido de imediato, mas funciona como instrumento modelador de atmosfera — ora conferindo uma aura de normalidade a situações bizarras, ora acrescentando uma camada de inquietação a momentos que, isoladamente, talvez não evocassem tal emoção.
A imagem apoia-se sobretudo na sobriedade da direção de arte, que sustenta a verossimilhança da narrativa. Tudo parece ao alcance do toque e, por isso mesmo, possível. Nesse diapasão, o uso da luz e da sombra se revela decisivo — especialmente nos instantes em que certas descobertas precisam emergir.

Na seara da atuação, três trabalhos merecem destaque. A breve, porém intensa, presença de Teyana Taylor é a força motriz do primeiro ato — uma autêntica tour de force. Suas interações com a personagem vivida por Sean Penn são particularmente envolventes por romperem expectativas de ambos os lados, revelando nuances inesperadas e posicionamentos contra-intuitivos ao longo da análise de seus arquétipos.
Também merece menção a construção da fisicalidade do Coronel Steven J. Lockjaw. Sua figura pitoresca encarna a metáfora — previsível, mas ainda funcional — da mediocridade de uma elite supremacista que, sob o verniz da autoridade, revela-se fraca, desfigurada e banal.
Por fim, há o que faz Leonardo DiCaprio. Ele estabelece um equilíbrio notável entre movimentar a narrativa a partir do segundo ato e fazer brilhar sua própria personagem. Fá-lo com precisão: há um humor espontâneo — às vezes até irritante —, um certo desequilíbrio emocional e uma indecisão entre viver o passado e o presente que constroem um ser complexo, pleno de nuances observáveis.
A maturidade técnica e a sensibilidade humana de Paul Thomas Anderson resultam em um cinema potente, capaz de abordar temas difíceis e complexos sem jamais perder a alegria fundamental do audiovisual — a sua capacidade de vínculo, de criar comunhão entre imagens e afetos. O que resta ao final, além de uma experiência arrasadora, são sentimentos diversos prontos para se assentarem na psique do espectador e, quem sabe, provocar uma mudança — por menor que seja.

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