Panah Panahi. Irã, 2021.
Uma família e seu cachorro doente pegam a estrada rumo a uma jornada misteriosa. Ao longo da estrada, a dinâmica familiar ganha espaço para desatar alguns nós e revelar segredos.

Um road movie com um segredo, “Pegando a Estrada” honra a característica que elevou o cinema iraniano a um dos melhores do mundo: é exaustivamente instigante. Efetivamente, tivera o filme um roteiro mais assertivo, estaria entre as melhores do ano.
O diretor distribui as pistas compassadamente, sem precisar dizer o que não precisa ser dito. Ela utiliza brilhantemente os elementos à sua disposição para equilibrar a tensão e o alívio, de forma calculada e sistemática, alternando o foco da dinâmica familiar. Neste processo, ele consegue, sutilmente, desenvolver suas personagens, através de um olhar humano e generoso, apesar das distrações do roteiro.
Os enquadramentos capturados pela direção de fotografia produzem planos espetaculares, valorizando as paisagens e utilizando, com muita sagacidade, o pouco espaço de dentro do carro, principal cenário do longa. Há um senso estético muito consistente, que permeia as escolhas, as cores, os tons, as sequências, conferindo unidade e robustez ao resultado final.
Quando o cineasta abre mão da sobriedade, recorrendo pontualmente à suspensão da descrença, ele conquista as duas melhores e mais emblemáticas cenas do filme, incluindo a deslumbrante cena final. Nestes momentos em que o diálogo é deixado de lado é que a expressão ganha palco para transmitir a carga emocional da trama, auxiliada pela música, que nomeia os sentimentos.
Para que a composição funcione, é indispensável a força retumbante das atuações. Todas as performances ganham espaço e complementam uma à outra, garantindo a propagação da energia familiar, efusiva e caótica pela tela, até o espectador que fica contagiado pela atmosfera no automóvel. Neste sentido, ressaltam-se os momentos de alegria, estrategicamente dispostos ao longo da narrativa, mitigando o suspense e proporcionando um toque de leveza e ternura.
“Pegando a Estrada” é um convite surpreendentemente profundo à intimidade daquela família acalorada. A cada quilômetro, mais uma dica, mais uma peça do quebra-cabeças, montado ao som de gritos, risos e lamentos, até a compreensão, o limite, a fronteira, o respiro final da cadelinha moribunda.
RATING: 81/100
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