Philippe Lacôte. Costa do Marfim, 2021.

Recém-chegado a prisão de MACA, em Abidjan, o jovem, que se tornaria Roman (Bakary Koné), se vê numa enrascada na qual a criatividade é sua única arma. Com uma narrativa muito própria, o longa vai se desenvolvendo quase como um conto de fadas ao contrário, subversivo, enquanto o Roman narra a fantástica história de Zama King.
A maneira como Lacôte explora a mitologia da truculenta prisão de MACA é verdadeiramente fascinante: uma viagem dentro de outra viagem, musical, turbulenta, fantástica e vibrante. Ele parte dos claustrofóbicos corredores penitenciários, lavados de calor e suor e, recorrendo à imaginação, embala numa trajetória pelos campos, as selvas, os mares e as vilas da Côte d’Ivoire.
E o que embola na prosa, desembola na poesia e vai levando com a barriga, com a dança, com o improviso e errando sem (mas com) medo de errar, usando os elementos possível, juntando as peças e criando uma nova narrativa, em ziguezague, indo e voltando. Ás vezes frustra, quando deixa de juntar algumas pontas, esquece, dá um fim, com embromação visível, mas espelhando o espírito daquele ordenamento, a Constituição da MACA, e da África, onde a maior arma é a criatividade.
Intencionalmente ou não, a narrativa recorre a um tom de absurdo, que poderia ser bem mais proveitoso se não fosse a insistência numa verossimilhança capenga. Nesse sentido, falta um toque coragem para se entregar ao conceito de sonho febril que, invariavelmente, engole a história.
Aqui, o cineasta entrega um relatório muito honesto de suas habilidades por trás das câmeras, não esconde suas fraquezas e valoriza suas paixões. O resultado final é mais do que satisfatório, é promissor, seja pelo impulso poético que vibra seus acordes, ou então pela habilidade nata de contar histórias com tão pouco em mãos.
RATING: 80/100
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