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cinema | poesia | verdade

Casa de Antiguidades

João Paulo Miranda Maria. Brasil, França; 2020.

Cristovam (Antônio Pitanga) é um preto velho nascido em Goiás que vive no sul do Brasil, onde trabalha para uma fábrica de laticínios e reside em uma colônia europeia tradicionalista. Com dificuldades em se conectar a si mesmo e à sua ancestralidade, o protagonista busca, nos animais ao seu redor, o espelho que não encontra nas pessoas.

Desde as primeiras cenas, o cerco está montado. A brancura indigesta, o olhar por cima, o idioma – “Eu não entendo o que ele diz”, e nem eu, Cristovam. O chefão já anuncia o endurecimento regime: o salário diminuirá, se não aceitar, perde os benefícios. A truculência vem chegando, dá pra sentir, logo nos primeiros minutos, na a atmosfera hostil construída pelo cineasta.

Aí o ódio vai tomando outras formas, vai sendo criativo – Que tá olhando, caralho? Mata logo! – É brutal, cruel, e o protagonista sabe, não é burro… o mostro vem chegando, em forma de fera, de piá, armado de espingarda. Estão chegando: na aparência, o personagem; nas paredes, a verdade, e vêm munidos de destruição, desrespeito, dezessete. É hora, ele sabe. Com a arma na cabeça, o velho está velho, já não produz leite, já não tem serventia.

O fogo nos olhos enuncia a resistência, a ancestralidade manifesta, invocada. Ele é touro jatobá e ela é onça pintada, mas pelo menos é loira, com nome americano, adestrada. Ali ele se reconhece, na comida cheia de tempero – Seja bem vindo! – E se todo mundo bateu ele, ele também vai querer bater um pouco, aprendeu certinho, Cristovam.

Não falta coesão em Casa de Antiguidades, ainda que repleta de simbolismos, a narrativa toma seu rumo, sem qualquer incoerência. Tampouco falta sutileza e isso porque Miranda Maria não a deve ao espectador. Cabe retratar com sutileza o período mais violento de luta de classes enfrentado por este país? Prejudicaria o desenvolvimento, ao meu ver, se o filme não demarcasse, desde o início, o seu posicionamento nas trincheiras, o que não é o caso. Tal qual o berrante do preto, Casa de Antiguidades é um manifesto, um chamado e sua qualidade cinematográfica é elevada por seu desejo profundo de revolução traduzido habilmente para as telas.

Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu que se cuide.
Deus assima de todos.
Amém.

RATING: 79/100

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