
João Nuno Pinto. Portugal, 2020.
Enviado à África para lutar durante à Primeira Guerra Mundial, o soldado português Zacarias (João Nunes Monteiro), 17 anos, embarca em uma jornada solitária pelos confins de Moçambique para guerrear junto à sua companhia. Com a guerra na cabeça, ele enfrentar diversos obstáculos para satisfazer sua vontade patriótica.
Neste provocante estudo de personagem, há uma contradição visual interessante. Zacarias é um soldado português magro, visivelmente enfraquecido por sua jornada e indiscutivelmente inexperiente, virgem, jovem de tudo. Este mesmo rapaz decrépito incorpora, nos moldes epopeicos, os espíritos do nacionalismo e do imperialismo. Sua mentalidade colonialista cai como uma piada na construção de sua personagem. A Pátria, oh gloriosa Pátria, mal se sustenta em seu peito miúdo.
O ritmo está irretocável, queima lento mas flui, progride a evolução frustrada de Zacarias. A fotografia, centrada no protagonista, brinca com o sol e com aridez do terreno, colecionando momentos inspiradores e alucinantes, quando pede a narrativa. A direção é especialmente habilidosa, demonstrando uma maturidade que não perde a paixão, envolvente e sem medo de ousar.
A guerra, guerra mesmo, foi vencida na Europa. Eles ali brincaram de esconde-esconde com os colegas alemães, os quais eles insistem em enfatizar a brutalidade, como a dos pretos, dizem eles. De guerra fica só um pano de fundo confuso mas eficiente para despertar os gatilhos da jornada que realmente importa, a viagem psicológica do soldado, obrigado a entender sua posição, (e a dos outros, por que não?), em meio aos interesses alheios que ele tanto busca honrar, forçado pelo calor, pela sede, pelo medo. Foi colonizado pelas pretas pra assimilar que sempre esteve é de coleira, explorado e feliz da vida.
Zacarias não venceu a guerra. Como poderia? A guerra nunca foi dele. Mas saiu vitorioso se entendeu seu papel e parece que entendeu. E que se dane o meu sargento, que seja engolido vivo pela África. Que seja esse o destino de todos eles, na África, Ásia e América Latina, pelos leões, tigres e onças que vão resistindo por aqui.
RATING: 84/100
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