
Ana Elena Tejera. Panamá, 2020.
Há muito anos, Cebaldo disse adeus ao Panamá, à sua família, sua tribo e sua cultura para partir à Europa, em busca de uma outra vida. Agora, trabalhando em um porto de pescaria português, os fantasmas do passado chamam o índio de volta à terra até que a necessidade de regressar seja arrebatadora.
A terra chama, as raízes doem, Cebaldo sente e precisa retornar. A voz do mar é a mesma, aqui e lá: não deixa o homem esquecer completamente, ainda que as lembranças sofram a corrosão do tempo, do afastamento geográfico e emocional. Aqui, o mar é tido como uma espécie de entidade: mãe, memória ou história, é a casa da saudade, do paradoxo entre a distância e a conexão.
A direção permite que a vida do pescador simplesmente flua para a câmera, que contempla os detalhes, os sinais, cada pequena demonstração. É um condução livre e extremamente competente para um documentário. Fora do convencional, a documentarista captura e monta os eventos com uma qualidade poética e estética emocionante, extraindo o melhor da história.
Aqui, as cores do passado são mais vívidas do que as do presente. A infância, o folclore, os cânticos, rituais e banhos de erva: tudo ficou ali por entre a floresta quente e úmida, mas o índio já se acostumou com o frio da Europa, ou não? Abandonar a si mesmo é acordar na ilha deserta do esquecimento e Cebaldo sabe que é preciso regressar, recorrer à sabedora ancestral para entender, para enfrentar a vida e a morte.
A saudade do protagonista é objeto documental e, partir daí, a sua jornada para se reencontrar afinal. De volta à terra, ao irmão, as diferenças são evidentes, estão na pele, no cabelo, no peso, no tempo de refletir, de se conectar. O resultado desta busca, pelo pai, pelo Cebaldo, é religiosamente belo, interessante, comovente.
RATING: 80/100
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