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cinema | poesia | verdade

Mauricio de Sousa: O Filme

Avaliação: 2.5 de 5.
Pedro Vasconcelos | Brasil, 2025.

Qualquer um que assista a Mauricio de Sousa: O Filme percebe rapidamente que se trata de uma obra vinda de um lugar profundamente afetivo para o seu diretor. Isso se evidencia, antes de tudo, pela presença constante da brincadeira — tanto na coreografia das cenas quanto na edição dinâmica. Também é perceptível no trato com a figura de Mauricio: próxima e terna nos diálogos, mas reverencial nos enquadramentos e na mise-en-scène.

Para quem conhece minimamente o trabalho e a trajetória do desenhista, o longa não traz grandes revelações — embora, devo admitir, uma única informação tenha me surpreendido: foi curioso descobrir que Mauricio chegou a ser considerado “subversivo” pela editora em que trabalhava por associar-se a movimentos de trabalhadores. No campo biográfico, então, o filme apresenta uma versão bastante higienizada da vida do artista — algo esperado para o público infantil, mas que não impediria o uso de subtextos capazes de dialogar também com o espectador adulto.

A parte mais tocante é, sem dúvida, acompanhar o processo de criação de seus personagens mais emblemáticos — primeiro Bidu, depois Cebolinha, Mônica, Magali, Cascão e Chico Bento. O foco nas pequenas coincidências e manobras do destino que levaram cada um deles a ter certas características (como a cor azul do Bidu ou o nome do Cebolinha) é emocionante e fala diretamente a quem — como eu — aprendeu a ler com os gibis da Turma da Mônica.

É verdade, no entanto, que o filme só funciona plenamente quando existe esse vínculo prévio entre espectador e obra. Não que alguém alheio a esse universo não possa compreender a história, mas a conexão emocional depende fortemente dessa relação anterior.

No campo da execução, há pequenas distrações: um ou outro sotaque carioca deslocado (em mais de uma personagem), as perucas caricatas da Dona Marilene e o sorriso compulsivo de Mauricio, que ultrapassa o limite do carisma para se tornar um exagero — tanto na frequência quanto na intensidade. São detalhes que não comprometem o todo, mas que poderiam ter sido suavizados.

Outro aspecto que pode incomodar alguns é a insistência do diretor nos closes fechados durante quase todas as interações. Há algo de estranho quando duas pessoas terminam de conversar e passam trinta segundos caladas, olhando-se em silêncio, com expressões pouco naturais. Particularmente, porém, como me atraem esses pequenos momentos de constrangimento, essa escolha acabou me agradando.

Dois elementos, contudo, realmente comprometem o resultado. O primeiro é a narração: o texto é quadrado, pouco natural na fala e, por vezes, redundante — descrevendo o que já está visível em cena. Inexplicável, ainda, é a decisão de colocar o Mauricio criança como narrador de suas próprias cenas, uma vez que o filme dá a entender que a história é contada a partir do presente, em retrospectiva.

O segundo problema é mais doloroso: o filme termina na metade. Selecionar um recorte temporal em uma biografia é uma escolha legítima, mas aqui a narrativa simplesmente se interrompe, sem fechamento. O encerramento abrupto — com a fala “e ainda aconteceu muito mais, mas fica para uma outra história” — ocorre justamente quando o ritmo estava em sua melhor fase.

Uma surpresa agradável, por outro lado, é a performance de Mauro Sousa. Mesmo preso ao sorriso hiperbólico durante quase todo o tempo, ele demonstra talento na entrega das falas e um olhar expressivo. É pedir um pouco demais, contudo, acreditar em um homem de quase 40 anos interpretando um Maurício de Sousa de 18.

Apesar das imperfeições, Maurício de Sousa – O Filme oferece uma experiência positiva a quem tem laços afetivos com o universo da Turma da Mônica. As incorreções limitam sua potência, mas não impedem que o longa cumpra seu principal propósito: celebrar a vida e a obra de um dos maiores artistas brasileiros.

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