Durante o curso de um século, mulheres e meninas vivem sua juventude e descobrem seus traumas em uma fazenda alemã. O passado e presente parece se diluir pelo vínculo que as une.

A morte é o silêncio.
Ela está no hábito preto, nas fotos póstumas desbotadas, nas moscas varejeiras, na doença, nos membros amputados — e na vida.
A vida é o barulho.
Ela está na música, nas conversas noturnas, nas brincadeiras de criança, nos sorrisos, nas quedas — e na morte.
Mas não faça uma leitura maniqueísta.
Há beleza na morte: nas paredes brancas com quadros tristes, no som oco sob o chão de madeira seca, nas reuniões ritualísticas.
E quando tudo fica borrado?
Isso é vida ou morte? Ou um estado intermitente entre esses dois polos — como o sono ou a miopia?

Acompanhamos tudo como um espírito zombeteiro que circula pela casa — é ela, afinal, o elo entre as gerações. Corre pelos cômodos, espia pela janela, bisbilhota pelo buraco da fechadura. É a principal testemunha do que muda, mas permanece igual, passe o tempo que passar. É a câmera capaz de fotografar fantasmas e vislumbrar o futuro.
Ele nos permite ver, mas não escutar, o grito que vai subindo pela garganta, como a bile no esôfago, querendo abortar a missão, querendo dizer não. Mas o corpo, condicionado, não permite parar: há que seguir, há que fazer o trabalho sujo, há que machucar os outros e a si mesma. Determinismo biológico silencioso, esse.
Assistimos a elas darem uma mordida ou um beliscão entre os dedos, ou nas partes menos enervadas da mão. Não para confirmar o estado de vivência, mas para duvidá-lo. Para ter esperança de que, uma vez submerso, o corpo não resistirá.

Quem tem coragem de romper o ciclo?
Só há uma saída, todos sabemos: pulando do pavimento superior do celeiro, metendo-se em frente à colheitadeira, fugindo para sempre. Nada pode ser pior do que essa melancolia, não é? Deve ser!
Mulheres e meninas, de diferentes tempos, contemplam a morte com medo e desejo — como fazem com os homens. Anseiam pelo seu mistério e por sua libertação. Buscam sempre uma conexão — de sangue e suor — que é irremediavelmente sexual. Então, é este o estado intermitente entre a morte e a vida? O sexo?
Mulheres e meninas, de diferentes tempos, observam umas às outras para saber o que fazer, qual o momento certo de rir, qual sabor de sorvete escolher. E sem dar uma razão, e sem aceitar um não, o corpo imita o que os olhos veem — as poses em fotos póstumas ou a risada estridente de uma amiga.
Mulheres e meninas, de diferentes tempos, repetem os mesmos rituais.
E repetem.
E repetem.
E repetem.
Sem saber por quê — pois o que é dito muitas vezes perde o sentido.

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