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cinema | poesia | verdade

Left-Handed Girl (左撇子女孩)

Avaliação: 3.5 de 5.

Uma mãe solteira e suas duas filhas se mudam para Taipé para abrir uma lanchonete em uma feira noturna. No novo ambiente, cada uma embarca em uma jornada pessoal de adaptação, enquanto a unidade familiar fica cada vez mais abalada.

Shih-Ching Tsou | Taiwan/Estados Unidos/França/Reino Unido, 2025.

O tempo passou, muitas coisas mudaram e outras nem tanto. Hoje, canhotos não são mais enforcados em praça pública, mas continuamos tratando as crianças como seres estúpidos, incapazes de entender as conversas dos adultos. Left-Handed Girl é sobre essa pequena tirania: exigir que as crianças se comportem conforme as qualidades que os adultos que as ensinam não conseguem desempenhar.

No centro da narrativa, temos três mulheres de um mesmo núcleo familiar, cujas micro-histórias individuais se embolam num melodrama que dará nome, rosto e resolução à trama maior — que, uma vez revelada, explica os motivos, o histórico e a dinâmica dessa família. Cada uma, à sua forma, sente a pressão de ser mulher e pobre numa metrópole efervescente como Taipé; todas buscam formas de contornar as dificuldades e viver apesar delas.

A graciosa I-Jing (Nina Yeh) busca entender o mundo ao seu redor, mas é sempre afastada das discussões e tem sua curiosidade frequentemente castrada por sua mãe e sua irmã. Influenciada pela visão ignorante de seu avô, ela descobre que sua mão dominante — a esquerda — é a mão do diabo, usada exclusivamente para fazer o mal. Sua mente infantil e criativa vê nessa situação uma oportunidade para escusar-se de suas pequenas travessuras e cometer furtos, atribuindo a culpa ao maligno membro.

A seu turno, a jovem I-Ann (Ma Shih-yuan), ansiando ganhar autonomia pela via econômica, trabalha em um comércio de doces que tira proveito estratégico dos atributos físicos da moça. Sua relação extraprofissional com o patrão, secretamente casado, termina em um desfecho indesejado.

Finalmente, Shu-Fen (Janel Tsai), a mãe das meninas, precisa lidar com a morte do ex-marido e os trambiques da própria mãe, enquanto luta para ter sucesso com um novo empreendimento na maior feira de rua de Taipé. Lá, ela conhece outro comerciante que, disposto a apoiá-la em suas dificuldades, se torna seu novo interesse amoroso.

A dinâmica das três é típica de uma família urbana disfuncional — traço que aponta diretamente ao cinema de Sean Baker, um dos corroteiristas. Desde logo, fica evidente que há amor entre elas, mas também uma mácula profunda na relação, principalmente entre as duas adultas. O clima de tensão, suspenso no ar no estreito apartamento, aponta para a existência de um histórico de feridas silenciadas em nome das aparências, mas jamais sanadas.

Essas dores são sintomas típicos de uma sociedade conservadora e tradicionalista, em que os costumes são mais importantes que os indivíduos. O filme é recheado de exemplos dessa hipocrisia sistêmica: a mãe de Shu-Fen, por exemplo, acha vergonhoso que sua filha, mulher, lhe peça dinheiro depois de casada — mas não vê problema no fato de esse mesmo dinheiro advir de fraudes de imigração.

A despeito da gigantesca importância temática, chega uma hora em que a crítica começa a ficar redundante — o que poderia ser facilmente corrigido com uma montagem mais assertiva. O enfoque nos problemas sociais acarretados por uma sociedade de costumes, no entanto, prepara terreno para a grande revelação do roteiro que, embora não totalmente surpreendente, dá ao espectador uma boa carga de emoção para se agarrar no ato final.

Na seara técnica, é um trabalho muito vivo e rico em cores. As luzes da cidade, principalmente durante a noite, realçam a vibração pungente de uma metrópole que não dorme, construída sobre o trabalho de tantas pessoas comuns que suam para ganhar a vida — tais quais Shu-Fen e I-Ann. A música alegre informa o espectador de que, nesta vida, não há tempo para contemplar as dificuldades, senão para acordar para um novo dia — uma nova noite de trabalho.

O ritmo acelerado, assim como o peso dos costumes, não deixa os sentimentos verem a luz do dia, embora aflorem secretamente em quem viveu e vive cercado de traumas. A cada segundo, uma nova informação, um novo evento, o acelerar de uma moto chegando atrasada e indo embora sem nem dizer adeus. Há que se fazer dinheiro, há que pagar o aluguel; não há que ter compaixão — menos ainda por aqueles que nos machucaram no passado.

Left-Handed Girl quer terminar para cima, com uma mensagem final de esperança — e assim o faz, confortando o espectador após um momento de grande tensão. Mas não sai da boca um gostinho amargo, insistente, que nos lembra de como a consciência social caminha a passos curtos, às vezes até para trás; de como tradições privadas de razão ainda prevalecem sobre o bem-estar das pessoas e atrapalham seus processos de cura. No fim, o verdadeiro pecado nunca esteve na mão esquerda — mas na direita, com o dedo sempre em riste.

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