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cinema | poesia | verdade

Palestina 36 (فلسطين ٣٦)

Avaliação: 2.5 de 5.
Annemarie Jacir | Palestina/Reino Unido/França/Dinamarca/Qatar/Jordânia, 2025.

É muito difícil julgar Palestina 36 porque, de um lado, temos um tema de enorme importância, relevância e urgência e, de outro, problemas visíveis na dimensão técnica. É um daqueles filmes que lamentamos profundamente que não sejam melhores, pois dialogam com questões que necessitam, fatalmente, de visibilidade — ainda mais sob um ponto de vista contra-hegemônico, como o que a obra propõe.

O ponto central de Annemarie Jacir neste trabalho, além de trazer a perspectiva palestina sobre o início do processo de ocupação sionista ilegal em territórios até então habitados por árabes, é deixar claro que esse projeto de invasão foi — e ainda é — arquitetado e patrocinado por superpotências estrangeiras. O Reino Unido, no passado, e os Estados Unidos, no presente, figuram como os principais fiadores das sucessivas violações ao Direito Humanitário Internacional cometidas no território ocupado.

O povo palestino, como a esmagadora maioria dos povos que ocupam a periferia do capitalismo, foi vítima da colonização europeia, que drenou seus recursos naturais e subjugou sua população. Ocorre que essa infeliz parcela da humanidade foi submetida, ainda, a um segundo processo de colonização — muito mais violento — que perdura até os dias atuais e segue intensificando-se.

Trata-se da ocupação com fins de apropriação fundiária e habitação por parte do povo judeu: um plano europeu de higienização dos próprios territórios nacionais e de controle político e econômico de um ponto estratégico no Oriente Médio. Nesse sentido, Jacir honra seu compromisso com a verdade histórica ao retratar os colonos judeus como coadjuvantes no início desse processo, já que há ampla documentação comprovando que o massacre fora desencadeado por autoridades britânicas.

O roteiro, no entanto, é superficial ao tratar de suas personagens e subtramas. É certo que, para retratar a barbárie da Coroa Britânica, haveria formas mais cinematográficas e impactantes do que apresentar seus agentes como demônios fardados sedentos por sangue. Veja bem: é plenamente justificável representar a violência da opressão sofrida nas aldeias palestinas, mas o maniqueísmo extremo compromete a verossimilhança da obra.

As histórias individuais de suas personagens principais não poderiam ser mais óbvias e previsíveis. Elas parecem existir apenas para cumprir tabela, já que tudo o que realmente importa é o processo de colonização. Ora, se essa é a intenção da autora, por que ocupar-se de criar subtramas em primeiro lugar, em vez de focar exclusivamente nos massacres?

Além disso, o uso constante de fórmulas narrativas desgastadas prejudica a potência da mensagem. Cenas de impacto que imploram pela empatia do espectador e repetições redundantes aparecem a todo momento. É particularmente frustrante, pois a própria história já é atroz o suficiente — um retrato menos afetado seria capaz de provocar o mesmo efeito.

Há que se elogiar, porém, o trabalho de fotografia. Embora não seja especialmente inovador, o visual é indubitavelmente belo, aproveitando com excelência as paisagens locais, a cultura e a beleza do povo. Alguns registros históricos também são utilizados de forma oportuna, transportando o público diretamente à Palestina de 1936 já nos primeiros segundos do filme.

É impossível terminar Palestina 36 sem sentir-se abalado — tanto pelo inflamado sentimento de injustiça e desesperança ao conhecer mais a fundo essa história, quanto pelas falhas do filme. É preciso compreender, contudo, que se trata de um trabalho instintivo e apaixonado, de uma diretora que carrega a urgência de denunciar o que acontece com o seu povo. Apesar dos deslizes, a mensagem de Jacir é poderosa e, sem sombra de dúvida, justifica o filme.

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